Caso tenha esquecido, egrégia signora, permita-me recordar: sou a Copa do Mundo. Sei que antigamente eu lhe agradava, por quatro vezes me ergueste orgulhosa, galante como os bambinos que te defendem. Em 2006, ou seja, indecentes 20 anos atrás, vivemos um idílio tórrido. Emudecemos os alemães, entupidos de chope até a testa em Dortmund. Te amei naquela tarde, porque fazer desfeita a um anfitrião solidifica paixões instáveis como a nossa. E depois, em Berlim? Derrubamos a máscara da elegância francesa, fazendo o 10 deles um bárbaro, que resolve as coisas na base da cabeçada. Não éramos os mais hábeis, nem os mais responsáveis, nada de especial nos destacava, a não ser o desejo de ficarmos juntos.Pena que, terminado aquele verão, você foi se afastando. Primeiro, fez aparições rápidas, desinteressadas, como quem sente fastio. Maledicentes disseram que você chegou à África de costas para mim, tamanha a pressa de voltar para a tua bota. Não te vejo desde 2014, quando te cravaram os dentes no Brasil. Mas, quer você queira, quer não, o dado concreto é esse: sou a Copa do Mundo, somos íntimos, e não compreendo teu esforço em me evitar.Vendo você jogar, numa aridez de inspiração que nem lampejos de talento compensam, parece que sou a carrasca, inatingível, e você, a vítima, vacilando até se meter em duelos de vida e morte na friagem dos Balcãs – para sair morta, humilhada. Eu me perdoo, claro. Com seu modo figurado de sempre, você quis me mostrar que antigamente fomos felizes, mas que, depois, aquela felicidade sucumbiu a rituais que nos sufocaram. Não sei se concordo, sinto tua falta.Então tentei reagir, inchando-me a ponto de acolher até ilhas minúsculas do Caribe, nações às voltas com guerras e países em que nenhum habitante jamais completou mais de cem embaixadinhas. Você reiterou afastamentos, com discursos sem palavras, plenos de rejeição. Um apreço pela memória defensiva, um enferrujamento das dinâmicas de jogo, o distanciamento de um passado glorioso, azul, que já não responde ao que o mundo exige hoje. Mais uma vez a tua gente, signora, vai me ver do sofá, beliscando pizzas que não chegam aos pés das de São Paulo e Buenos Aires. Agora está tudo claro para mim, você decidiu nos abandonar à própria sorte, com iraques, congos e curaçaos. Mostra que não tem mais nenhum afeto por mim, que me rejeita.Em 2021, pensa que não fiquei com ciúmes? Ficou de assanhamentos com a Eurocopa, até levá-la na lábia, também nos pênaltis, essa forma furtiva como gostamos de nos reencontrar ao longo dos anos. Talvez fosse ingenuidade incompatível com minha idade, mas achei que seria o prelúdio de um reencontro, de uma reconciliação. Então você deu mostras de se saciar com ela e reincidiu no sumiço.Nós duas conhecemos a arte da reticência. Desta crise que se arrasta, aprendemos que, para ficarmos juntos, é preciso alguma covardia. Foi num jogo cheio de feiúra que nos amamos, mas sou obrigada a admitir: isso não funciona mais e há anos não temos nenhum tipo de sentimento em comum. Entendo teu fraco pela Eurocopa, plena de viço. Estamos nos amando protocolarmente, mesmo quando tudo parecia luminoso aos olhos dos outros.Por saber desse caráter pegajoso da nossa relação, temo que alguém revire nossas coisas e descubra, no meio de tanta quinquilharia, as razões por que não mais nos encontramos. Pense se não vale caprichar mais na próxima, por nós dois, pelo que vivemos de intenso e imperfeito. Agora que estou perto dos 100 anos, não quero aprender a gostar de mim sem ti.