Hoje não vim aqui insultar velhinhos, denunciar pedófilos na piscina, cobrar postura ética de semideuses da medicina, muito menos tentar enganar o algoritmo do Instagram. Eu quero emular férias, recuperar o fôlego. Eu quero aproveitar o friozinho e, transmutada em jiboia que engoliu mocó, ficar paralisada por um bom motivo, apoiar só com likes mesmo a luta contra o neocolonialismo. Mas moro na cidade e tudo aqui é uma precariedade danada para quem quiser olhar os lírios do campo. Está em falta o plano básico do Sermão da Montanha – a que ponto chegamos. Aqui onde moro não tem um coelho, um sapo, um gambá, um lobo guará cruzando o caminho. Aranha quase não se vê. Na cidade, o povo tem medo de bicho e de gente. Mas perigo é aparecer um tatu, que o pessoal come. Mistério é que as aves do céu (ainda numa referência ao Evangelho de Mateus) ainda estão por aqui. Quando saio de casa cedinho sempre dou de cara com um pombo no teto do meu carro, vivendo ali, cagando ali. Pobrezinho, confuso, arranhando o adesivo de proteção UV como se cutucasse a casca seca de uma árvore qualquer. Eu falo pra ele: bora nadar, Joaquim? E ele voa desengonçado, porque não é peixe.