O homem mentiu na piscina. Mentiu para não jogar a toalha. Disse que havia fechado o crawl, mas fez nem metade da série de cinco voltas, naquele dia. Depois de trapacear na contagem, permaneceu junto à borda puxando o ar feito um camelo, até chegar as 8h30 e o professor sinalizar o fim da aula. Não se confessou para os colegas, ninguém soube que “bateu o psicológico”, como costumam chamar aquele conhecido momento em que a mente sabota o nado. O coração disparado, a garganta trancada e o cérebro avisa: vai faltar ar. Ar não falta, mas o homem preferiu não arriscar. E pensando bem, avaliou que já havia corrido risco demais durante a semana.Na segunda, foi comprar proteína isolada sabor baunilha e, aproveitando a folga, deu um pulo no camelódromo de Campinas onde também adquiriu uma frigideira inox pequena o suficiente para caber somente dois ovos, um novo fone de ouvidos, três pares de meia branca, dois quilos de carne, uma caixa de bebidas energéticas e, por último, um pote de sorvete de flocos. Como estava se sentindo confiante, voltando para casa o homem parou na loja de usados de luxo e namorou um Jaguar verde. No dia seguinte, encerrou o expediente de trabalho com atraso e pegou trânsito da porta da empresa até a rua onde mora. Enquanto via a noite cair, não pode evitar pensamentos vingativos dedicados ao chefe narcisista, gesticulou nas travessas bloqueadas por motoristas malformados, atendeu à ligação da mãe e xingou mulheres ao volante, durante o percurso.Já na quarta estava mandando mensagens para ex-ficantes na hora do almoço, enquanto tomava um chope. Teve a impressão de que a garçonete estava flertando, afinal, aquela barba aparada no sábado estava mais do que perfeita. O homem pediu o terceiro chope para dar a elas um tempo maior para reagir com um coração vermelho talvez. E se colocasse um piercing? Melhor não ser confundido com viado. E se fizesse uma nova tattoo? Aí, sim... mas depende. Como não deu jogo nenhum, nem futebol à noite, foi dormir mais cedo pra render no nado borboleta.E se morreu no crawl, ninguém soube. Guardou pra si os instantes de desespero subaquático que o levaram até a infância, mergulhando nas águas frias e escuras da piscina de pedras do clube dos bancários. A pele nas mãos e nos pés deformada pela umidade, as unhas crescidas ao longo do dia, os olhos avermelhados que não voltam mais. Ainda estava inscrito no corpo do homem um nado inventado. Uma remada lateral com uma pernada que emulava movimentos próprios dos anfíbios e pescoço em riste na superfície. Um nado de sobrevivência inventado para escapar do tio, o “monstro abissal”, que puxava as crianças para as profundezas. O monstro tinha uma espada que cutucava os sobrinhos e amiguinhos dos sobrinhos submersos, quando agarrados por trás numa luta de titãs. A brincadeira só acabava com o choro por quase-afogamento, mas homem não chora e aquilo foi longe. Foi longe demais, até que transbordou.Era quinta-feira, o homem saiu da água, andou pelas ruas de barbatanas e nunca mais voltou àquela piscina. Corria à boca miúda que o seu desaparecimento havia sido provocado por um surto psicótico. Porque “surto psicótico” é o nome que conhecidos e desconhecidos dão a situações de tensão continuada que não têm explicação óbvia. Quando alguém sai do prumo e não regressa imediatamente. Quando demonstra publicamente comportamento inesperado que pode durar vários dias. Ele, o homem louco. Aquele que enlouqueceu. Coitado. Alguém precisa fazer alguma coisa.