Minha infância constantemente me traz recordações. Entre dezenas de árvores frutíferas que tínhamos no quintal de casa, algumas me marcaram. A lembrança mais intensa é da juju, fruta de formato oval que assim batizei e da qual me recordo até do sabor. Basta voltar ao passado que o gosto aguça minhas papilas. Para mim, a árvore se destacava entre mangueiras e uma frondosa jaqueira. As mangas eu apreciava, gostava de colher com uma vara de madeira e uma lata acoplada na ponta. Porque nunca gostei de fruta amassada. Quando algum irmão subia nas mangueiras, eu separava algumas para mim, desde que estivessem durinhas. A jaca, coitada, ninguém da família gostava. A árvore ocupava boa parte do terreno, fazendo uma sombra deliciosa. Mas o fruto, quando caía, deixava muita sujeira. E o cheiro era forte demais. As jacas eram doadas ou levadas ao mercado para serem vendidas. Era a marca do quintal. Até que o pé foi cortado para a construção de uma varanda, que abrigasse a grande família.Outra árvore linda que foi cortada na reforma era um xodó. As carambolas apareciam quase o ano todo. Eu as levava à torneira e retirava com os dedos o pó e uma espécie de óleo que revestia sua pele. Desde as verdinhas, saboreadas com sal, até as madurinhas e docinhas estavam entre as minhas preferidas, quando não sabíamos da toxicidade aos rins. E tinha o sabor único do amor, pois meu pai fazia no tacho de cobre um doce delicioso, em calda com corte de estrelinhas, ou em pasta, no estilo marmelada. O pé de ata também era quase meu. Criei o hábito de amarrar um plástico em volta de fruta já quase madura para que não caísse no chão. Era um ritual colher e degustar os grãos branquinhos e carnudos. Do cajueiro pequeno e totalmente torto, eu colhia doces cajus. Até o gosto meio insosso do jambo me agradava. Mas a protagonista do passado e de hoje, nesta crônica, é a juju. A frutinha de aparência de azeitona e polpa de textura levemente crocante. O sabor suave e agridoce que varia da fase de verde ou amarela, casca lisinha, à fase de madura, avermelhada, pele enrugada. Um gosto azedinho e muito saboroso. Não me lembro quando o pé deixou de existir. Perguntei sobre ela para meus familiares, ninguém se recordou. Durante anos um questionamento me invadiu: que fruta era essa que eu chamava de juju? Por mais desconhecida, não era fruto do meu pensamento. Ela existiu e muito me saciou. Nada de resposta. Até que um dia a amiga Míriam postou uma foto perto de uma árvore, na Itália. “É ela! Minha juju”, vibrei. Troquei mensagens e a amiga me disse que lá é chamada de giuggiole. Li que o nome é jujuba ou Ziziphus jujuba. De origem asiática, há centenas de espécies. Na medicina chinesa é usada há mais de 4 mil anos para reduzir o estresse e a ansiedade com sua capacidade sedativa. Tem outros benefícios: desintoxicar, evitar a proliferação de radicais livres, combater a anemia, melhorar a digestão, ajudar na perda peso, fortalecer o sistema imunológico, melhorar o sono e tratar a pele quando usada em cosméticos. Logicamente que há contraindicações. Como a fruta é rara, não sei como minha avó e meu pai encontraram muda para plantar. Eles não estão aqui para contar. Numa espécie de missão a que me designei ainda muito jovem está a perpetuação das memórias de meus ancestrais. Alegro-me com a raridade de tudo que vivi, aprendi ou ouvi de meus antepassados. Consegui, finalmente, resgatar essa parte da história familiar que me percorre os lábios com sabor de saudade. A descoberta não apenas atiçou meu paladar, agora me leva a uma nova procura: encontrar juju em alguma frutaria ou pomar.