Olhou para o celular desolada. Fez força para não chorar, mas não conseguiu. Perguntei se poderia ajudar. “Minha sobrinha de 16 anos morreu. Acabei de saber.” Surpresa, eu disse que sentia muito. Ela explicou que, por ser advogada, recebera da família a incumbência de redigir a mensagem sobre o falecimento para as redes sociais.“A questão é que entendo de leis, não de morte... Você escreveria essa mensagem para mim?”, pediu. Concordei imediatamente. É uma cliente por quem tenho um carinho especial. Em um momento de tamanho sofrimento, jamais me negaria a ajudá-la. “Sua sobrinha morreu de quê? Preciso saber a causa para elaborar a mensagem”, expliquei.Perplexa, ela questionou: “Nossa, mas isso é tão íntimo! Precisamos mesmo chegar a esse nível de detalhamento?”. Ponderei que, infelizmente, era necessário. Hoje, quando alguém morre — principalmente uma pessoa tão jovem — e a causa não é informada, surgem comentários ofensivos, afirmando que ela tirou a própria vida ou sugerindo todo tipo de barbaridade.“É inacreditável”, afirmou. “Minha sobrinha morreu em decorrência de um câncer descoberto há três anos. Mas fico me perguntando se devemos publicar isso”, avaliou, reticente. Sugeri que olhasse as redes sociais de uma jovem, filha de conhecidos, que havia morrido meses antes, vítima de uma infecção generalizada, e cuja família preferira não dar detalhes.Uma hora depois, ela me ligou. “Estou chocada! Os comentários são nojentos. Há quem diga que a menina devia usar drogas e quem alegue que ela pode ter se jogado do apartamento onde morava. Acho que as pessoas perderam o senso com a internet!”, desabafou. Refleti que talvez quem faça esses comentários não tenha perdido o senso — porque nunca o teve —, mas o pudor.Depois de 16 anos gerindo crises de imagem, tenho a impressão de que o mundo digital se transformou no escudo perfeito para quem gosta de destilar ódio e preconceito. Atrás de um celular ou computador, essas pessoas se sentem protegidas de qualquer censura e encorajadas a manifestar o que, de fato, pensam e sentem.Basta lembrar o caso de uma influenciadora de 22 anos que, há cerca de 15 dias, morreu em Brasília. Bonita e famosa no TikTok, a moça não apenas foi alvo de especulações sobre sua morte como também vítima do crime de vilipêndio. Houve quem escrevesse que gostaria de praticar atos sexuais com o cadáver da jovem no cemitério e no Instituto Médico Legal (IML).Nessas horas, lembro-me do quadro Haters, do extinto programa Custe o Que Custar (CQC), da Band. Comandado pelo repórter Lucas Salles, o quadro rastreava internautas que publicavam mensagens preconceituosas, agressivas ou ofensivas nas redes sociais.Lucas Salles ia com a equipe de gravação ao trabalho ou à residência dessas pessoas para questioná-las, cara a cara, sobre tanto ódio virtual. Sempre que possível, a produção colocava o autor do comentário diante da vítima. Em alguns casos, o hater demonstrava remorso e se desculpava.Creio, no entanto, que, na maioria das vezes, o arrependimento era fruto do constrangimento provocado pelo fim do anonimato. A covardia não gosta da transparência. No caso da minha cliente, escrevi um texto informando que a adolescente havia morrido em decorrência de um câncer agressivo. Por ora, bastou para conter as especulações de mentes doentias. Em tempos de crueldade sem rosto, até o luto parece obrigado a apresentar provas.