A primeira coisa a se fazer ao se construir uma casa, como vocês já sabem, porque são sábios e porque escrevo sobre isso desde o século passado, é a planta da casa. Vale igualmente para mudanças. Não se muda para uma casa, sem primeiro, claro, ter uma planta. E se possível não uma, mas várias.Nisso de me mudar atingi a maioridade. Contando os domicílios bem temporários, já me mudei 18 vezes. Pois cá estou de novo pela décima nona. E comecei naturalmente levando os vasos: violetas murchas; samambaias semivivas; jiboias amareladas e raquíticas; dois fícus, estes sim robustos e já reclamando vasos maiores; um único pobre, solitário e empoeirado cacto rabo de macaco.Minha flora pessoal é hoje modesta, pois desde que deixei de ser agricultora de areias no Ceará e voltei a viver em Goiânia, uma aridez se instalou em mim, acho que por causa daquela falta atávica que alguns de nós no Cerrado sentem do mar. Parei de cultivar couves e as poucas plantinhas têm sido negligenciadas.Agora, porém, com a mudança do tempo e a de domicílio – vieram as chuvas novidadeiras –, tornei a sentir os brotos do entusiasmo e da loucura vegetal rompendo a rotina e o tédio. Talvez você não se lembre, mas já fui a louca das plantas, legítima representante do grupo de risco das samambaias durante a pandemia de covid-19.Dessa vez não precisei, como quando parti para o Ceará, desocupar tantas gavetas, matando barata com facada, nem fazer o bazar “Condessa vende tudo, menos seu rabo de sereia”, pois se continuo juntando quinquilharias, elas já não são tantas quanto antes.Ainda assim, há muito a providenciar na nova casa, que está pelada como veio ao mundo. Devo instalar chuveiros, aparelhos de ar-condicionado, espelhos, armários.... Mesmo com as mãos atoladas nos afazeres, a cabeça insiste em emergir da lama prática para sonhar obsessivamente com uma coisa: o jardinzinho.Diferente das outras vezes, não pretendo fazer um jardim sustentável de pragas de Madame Natasha ou um jardim secreto. Fiquei mais ambiciosa. Venho sonhando com um que, não obstante pequenino, lembre a abundante bagunça da Mata Atlântica. Já me alertaram os amigos biólogos que não será possível, pois com o clima do Cerrado, um jardim atlântico só poderia existir dentro de uma estufa.Estou prestes a mudar de ideia, portanto. Sempre mudo, inclusive de assunto e árvore, embora volte sempre ao mesmo. Explico. O que eu queria dizer na verdade quando comecei a escrever esta crônica é que, em frente à casa onde ora vivo (só até esta sexta-feira) há um jacarandá mimoso. No momento ele está realmente mimoso, florido, e estou sofrendo por deixá-lo.E sofro não só porque não irei mais vê-lo, mas porque temo por sua vida. Nas últimas chuvas fortes do ano passado, vários galhos tombaram sobre o muro e a Prefeitura teve de remover metade dele. A outra metade permaneceu, mas com o tronco ligeiramente inclinado para a rua.Pois temo que, demonstrando a atual gestão da cidade simpatia por grama plástica e pela derrubada de árvores centenárias, o jacarandá torto esteja ameaçado. E eu não estarei mais aqui para abraçá-lo e tentar protegê-lo.O que me consola, sem, no entanto, diminuir o temor por ele, é que, além de casa, em frente a meu novo endereço, há um belíssimo ipê-branco que outro dia floriu, exuberante. Sei que não floriu para mim, mas eu senti como se, florescendo, ele me desejasse boas-vindas.Ao vê-lo, também pensei que eu poderia ordenar as lembranças de minha vida pelas árvores das casas em que morei e jardins que tive, tal qual a escritora espanhola Rosa Montero, que diz organizar as dela “em torno de um rol de namorados e livros”. Mas isso é outro e também o mesmo assunto para escrita, um que por enquanto está na planta.