Conheci Aline quando éramos jovens, ela um pouco mais que eu. Fomos vizinhas, apartamentos lado a lado. Eu com dois filhos, ela com três nas mesmas idades. Era comum as crianças brincando no playground ou no hall do nosso andar, enquanto conversávamos. Logo percebi que aquela jovem era uma mulher madura, mãe e dona de casa muito dedicada. Sofria com a doença renal do primogênito, um garoto doce como ela. Sofria, mas nunca reclamava, estava sempre animada. Fui conhecendo seu lado atencioso com todos. Nossa amizade foi construída dia a dia, com trocas de cuidados. Vez ou outra a campainha tocava e lá estava Aline, com uma cumbuca de sopa, uma travessa de bolo, um mimo qualquer da amiga presente. Uma mulher com três filhos pequenos conseguia ter tempo para acolher as pessoas, distribuir carinho, cuidar da família e sempre com um sorriso grande e uma voz doce.Até que mudei para outro prédio. Na despedida, entre olhares tristonhos, Aline me presenteou com xícaras que desmembrou de um jogo que tinha, amiga gentil. Ainda hoje elas estão na minha cozinha, preservadas com amor. Durante anos, nossos contatos se restringiram a encontros casuais, conversas pelo telefone e pelas redes sociais. Soube por outro ex-vizinho que Aline doou o próprio rim ao primogênito. A típica mãe de fibra que entrega sua vida a um filho. O transplante foi bem-sucedido por alguns anos. Mas, o mesmo amigo nos comunicou o falecimento do garoto aos 15 anos. E já se vão 20 anos daquela partida. Não soube no dia. Mas fui à missa de sétimo dia. Com meu coração ferido, muitas lágrimas, imaginei rever Aline abalada, desolada, arrasada. Seria normal. Para minha surpresa, ao final da celebração, Aline subiu ao altar e conversou com os presentes. A aparência abatida, mas a mesma voz suave dizendo palavras de esperança, compreensão, aceitação. Que força ela nos entregou. Aline, inspiradora. “Tivemos um tempo de preparação, quando ele foi piorando. Uma despedida muito difícil, mas ele me falando que precisava descansar. Foi a fé em Deus que me sustentou”, ela me revelou. Quando pôde, com os filhos crescendo, Aline voltou a estudar, formou-se em Direito, trabalhou. Imagino que tenha sido boa aluna e profissional, por tudo que conheço dela, mulher determinada. Também romântica com o marido e festeira, organizando festas juninas na região onde mora e reunindo sua família em festas temáticas, com decoração e pratos típicos. Mãe agregadora. Logo, Aline se arriscou em uma nova atividade, a de organizar e realizar excursões para shows em Brasília e em São Paulo. Uma vez viajei com ela até Brasília para o show de Caetano Veloso e Maria Bethânia. O show foi maravilhoso, emocionante. Com o acréscimo de uma viagem bate-volta tranquila, confortável e bem organizada. Ônibus de luxo, valor justo, fui ao lado de outra amiga a quem indiquei o trabalho de Aline. A essa amiga, eu havia descrito Aline como uma pessoa doce, confiável. Comprovamos desde o contrato firmado. Mas, no ônibus, vimos uma pessoa diferente, expressão mais séria. Entendi que estava conhecendo uma mulher empreendedora e responsável. Viagem ouvindo músicas de bom gosto. Ganhando presentinhos, lanches de Aline. Naquela madrugada, cheguei em casa extasiada com o show e feliz com a experiência que tivemos com Aline.Pensava que conhecia várias Alines, compreendi que não. Conheço essa mulher que tem várias feições, assim como tantas outras, entregues a múltiplas funções sem se esquecer da construção diária da própria felicidade. Sou rica por chamá-la de amiga. Ao escrever sobre ela, decido que quero mais aproximação. Já vou marcar um café para atualizar nossos assuntos. E, quem, sabe, conhecer outra face de Aline.