Costumo dizer que fui jornalista antes da graduação. Apenas uma forma de expressão. Porque jornalista eu me tornei após a formação na Universidade Federal de Goiás há quatro décadas. Profissão que ainda exerço, mesmo já aposentada e trabalhando em projetos autônomos.Explico. Ainda na infância fui repórter e editora do jornal do Instituto Santo Tomás de Aquino, onde cursei o antigo primário. Os flashes da memória me trazem lembranças de pautas como entrevistas com grandes nomes. A escritora Cora Coralina, em sua casa na cidade de Goiás, recebeu a mim e dois colegas para reportagem. Uma aventura para a menina tímida em sua primeira viagem sem os pais, levada por professoras. O então prefeito de Goiânia, Francisco de Castro, concedeu entrevista exclusiva a mim, para o informativo da escola. Para entrevista com o jornalista Jaime Câmara, fui levada por um funcionário da escola. Com minhas perninhas frágeis, foi difícil acompanhar os largos passos dele pela Avenida Goiás.Já adolescente, o momento de escolher um curso para o vestibular deu algum trabalho. Pesquisei sobre profissões, observei particularidades, avaliei minha vocação. Fiquei entre jornalismo e psicologia, com aprovações. Passei um bom tempo pensando até decidir com firmeza que queria ser jornalista. Meus pais não tinham o hábito de se envolver nas escolhas dos filhos.Dos meus oito irmãos, três optaram pelo jornalismo. Formado em direito, meu pai foi jornalista e um dos fundadores do pioneiro jornal A Voz Juvenil, do lendário Ginásio Anchieta, em Silvânia, muito antes de serem criados cursos de jornalismo no Brasil. Mas, se ficou alguma influência em mim, foi natural, nunca por induções. A convivência com eles me fez conhecer melhor o que eu queria. Consegui o que era meu desejo ao trabalhar no jornal o POPULAR tão logo me formei e um pouco além da aposentadoria. Mais de três décadas. Ali e em outros trabalhos paralelos sempre tive a certeza que a escolha foi acertada, valorizando meu diploma, que para mim é muito mais do que um papel assinado pela universidade. A ética e a responsabilidade, além de ser fruto da educação familiar, vieram dos professores, dos livros, dos projetos realizados, dos estágios em jornal e emissoras de rádio. A derrubada da exigência do diploma para o exercício do jornalismo, em 2009, por decisão do STF, trouxe um novo cenário na comunicação. Influencers assumiram funções de informação sem qualificação. Tornou-se comum a prática de qualquer pessoa na produção de conteúdo para redes sociais, blogs, podcasts e veículos que se multiplicam na era digital. E estamos aprendendo a conviver com a inteligência artificial. É fato que a comunicação está muito mais acessível, mas a informação que chega nem sempre é verdadeira. Basta perceber o mar de fake news espalhadas. Para bem informar, é necessário apurar os fatos, ouvir todos os lados, checar as informações, verificar as fontes antes de publicar.Jornalismo é profissão como tantas outras que precisa de uma formação de qualidade. Não é meramente opinião, essa forma de expressão, mas não notícia. A nova discussão do STF sobre a regulamentação da atividade jornalística chega como oportunidade de combater a desinformação e a precarização da profissão, de valorizar os estudos. Para informar com responsabilidade social e focando nos interesses públicos. Ótima oportunidade de reversão da medida que prejudicou a qualidade da comunicação e de luta pela retomada da exigência do diploma para o exercício. Aprendizados que tive com professores, com os exemplos dos familiares, com a longa carreira em convivência com quem soube o que é o exercício legal do jornalismo.