Na primeira vez que fiz o Caminho de Santiago, em 2016, eu buscava uma reconciliação. Na segunda vez, no ano seguinte, a busca foi para conciliar o divórcio com a vida. Só quando fiz a peregrinação pela terceira vez, em 2022, descobri que esse era um dos motivos que mais levavam peregrinos à Espanha: o divórcio. Pessoas infelizes tentando dar um jeito, incapazes de se mexerem, com medo, com desejos... Pessoas, de algum jeito, se divorciando. Conheci poucas histórias de peregrinos que fizeram a trajetória de mais de 800km de caminhada só pela fé. Bom, falei disso tudo não sei por quê. Não era o fio que eu pretendia traçar neste texto. Na verdade, queria contar outra história. Em 2017, quando peregrinei na Espanha pela segunda vez, lá pelo vigésimo dia de caminhada, meu celular caiu no chão em meio às pedras e se estatelou. Ficou imprestável. No ano anterior, quando fiz só a metade do percurso, aconteceu a mesma coisa, quando eu estava a um dia de Santiago. Então eu consegui comprar um aparelho novo no dia seguinte, na cidade de Compostela. Na segunda vez, ainda faltavam mais de dez dias para o fim. Eu precisava de um telefone para dar notícias à família, escrever crônicas para o jornal e terminar umas notas que eu fazia para o meu primeiro romance. Foi Jacinto, um amigo espanhol, que ao perceber minha aflição por não encontrar uma loja aberta naquele vigésimo dia, me chamou para caminhar consigo. Me fez perguntas, quis saber por que eu estava tão preocupado. “É para terminar um romance”, eu disse.