É, minha amiga, não deu tempo de te fazer aquela visita. Deveria ter sido em agosto do ano passado, mas, diante da correria insana do trabalho e das outras obrigações rotineiras — aquelas que nos são impostas ou que nós mesmos nos impomos —, fui engolida pelo passar dos dias e não consegui te ver. Quando dei por mim, já era tarde.Sexta-feira passada, ao abrir o Instagram, fui surpreendida pela notícia de que você havia partido. Sei que, há dois anos, você travava uma dura batalha contra o câncer — aliás, de forma tão corajosa e determinada, que até virou tema de uma crônica aqui —, mas não imaginei que ele pudesse avançar tão rápido e te levar assim.É claro que a primeira coisa que senti foi um enorme arrependimento por não ter feito a tal visita. Queria muito te ver de novo, sentir de perto sua fé inabalável, sua alegria e seu entusiasmo pela vida e pelas pessoas. Era quase impossível ficar desanimada ao seu lado: você nos dava a certeza de que tudo daria certo.Depois de ver o post na rede social, sentei-me no sofá e chorei da forma mais clichê possível, ouvindo Pais e Filhos, da Legião Urbana, e cantando baixinho, junto com Renato Russo, o refrão que nos lembra que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque, se você parar pra pensar, na verdade não há”.Com as lágrimas vertidas, comecei a refletir sobre essa rotina enlouquecida que nos engole e cega. Lembrei-me, então, do livro O Mito do Normal, do médico canadense Gabor Maté. Entre as muitas críticas pertinentes que ele faz, uma delas é à surpresa da sociedade diante do adoecimento de seus próprios membros.Adoecer, no mundo em que vivemos, não é exceção, é regra. Como explica Maté, habitamos um modelo social tóxico, que nos empurra a consumir medicamentos para produzir cada vez mais, manter o foco, emagrecer, conter a ansiedade e a depressão, dormir e anestesiar a tristeza e a angústia que tudo isso gera.Sabemos de cabeça a data daquele treinamento que ministraremos para um cliente ou daquela reunião decisiva para apresentar um novo projeto, mas não conseguimos lembrar da última vez em que nos sentamos, sem pressa, com alguém que amamos, para conversar sobre tudo e sobre nada, ouvir e ser ouvidos, dar e receber afeto.Fazemos uma ginástica enorme para encaixar aquele curso de atualização, estudamos à noite ou até nos fins de semana; gastamos um sábado inteiro maratonando séries, acordamos de madrugada para finalizar relatórios — mas não damos conta de visitar um amigo.Nossos celulares nos conectaram com quem vive no Japão, mas nos afastaram de quem está ao nosso lado. Nunca tivemos tanto acesso à tecnologia e nunca encontramos tantas desculpas para nos desconectarmos do essencial, travestidas de notícias irrelevantes, fofocas sobre celebridades e novos lançamentos de produtos.Primeiro eu me perdi de mim; depois, fui perdendo quem amo. Esta não é apenas a minha história, é a de quase todos que vivem na nossa sociedade e se distraem com tudo aquilo que inventam ser importante e urgente — tudo o que nos afasta dos vínculos, do acolhimento e do fortalecimento interno.Gostaria que você me desculpasse. Na verdade, é para mim mesma que estou pedindo perdão. Deixei passar uma oportunidade única, mas que se transformou em aprendizado. Sei também que, diante da sua generosidade tão grande, você saberia me compreender e não guardaria mágoas.Os dias têm andado cinzentos. Incrivelmente, bem na hora do seu velório, o céu se abriu e o sol apareceu. Prefiro acreditar que Nossa Senhora, de quem você era tão devota, afastou as nuvens para te receber em um abraço. Para mim, foi um sinal: o mundo segue correndo e atrasado, mas você chegou na hora certa — no tempo da eternidade, onde não há pressa, culpa nem adiamentos. Ali, enfim, nada mais falta.