“Todo fascista julga estar fazendo o bem. Todo linchador age em nome de princípios nobres. Toda vingança pessoal pode ser elevada a causa política, e quem está do outro lado deixa de ser um indivíduo que erra como qualquer indivíduo, entre meia dúzia de atos entre os milhares praticados, para se tornar o sintoma vivo de uma injustiça histórica e coletiva baseada em horrores permanentes e imperdoáveis.”Ah, Michel Laub. Como gosto desse cara. É o nosso Houellebecq, não pelo compartilhamento do nome Michel ou pelo cinismo grosseiro, no qual o francês é insuperável. Falo pela capacidade de verter em literatura as esquisitices do presente. Não basta ser antena da raça. É preciso coragem para mexer naquilo que ainda não foi sedimentado pelo tempo. Os livros de Laub são feitos a quente, sem que isso implique em perda de profundidade ou acabamento estético.Mas essa não é uma crítica literária. Vim ao computador em missão ainda mais pretensiosa, algo civilizatória, mesmo que o desejo de mudar o mundo seja um atestado de ingenuidade para um homem de 50 anos. Mas, como era de se esperar, não consegui escrever uma abertura mais contundente do que o trecho acima, do Laub, em O Tribunal da Quinta-Feira.No livro de 2016, o escritor conta as desventuras de José Victor, um publicitário de 43 anos, recém-divorciado, cujas conversas eletrônicas com o melhor amigo são jogadas na internet de forma leviana pela ex-mulher. Digo leviana porque as passagens pinçadas - sobre sexo, traições e até comportamentos intestinais - buscavam apenas a condenação pública e sumária de José Victor. O contexto desaparece para apressar a sentença dos juízes virtuais, cuja toga todos vestimos quando estamos on-line.Ok, o protagonista narra o romance em primeira pessoa, o que lhe dá o poder quase divino de conduzir a realidade nem tão inventada do livro. Mas a opção pelo narrador não confiável, por fim, fortalece o argumento central do romance. A adesão intelectual é uma faculdade humana preciosa demais para se basear em evidências frágeis, manipuladas, às vezes de jeito tosco.Há quem diga que, para estancar os linchamentos virtuais, basta a pergunta: “E se fosse eu?” Aqui recorro ao meu pobre estoque de pessimismo para duvidar da eficácia desse recurso. Primeiro, porque o cristianismo exibicionista virou uma ferramenta de marketing pessoal, voltada ao ego. Vejo pouca gente sinceramente preocupada com o outro. Segundo, e por fim, porque aceitamos o delírio da infalibilidade. Ninguém mais se enxerga como um ser falho e ambíguo. Todos acreditam, cafonamente, na grandeza imaculada da própria existência. Não é só a internet que favorece os juízes virtuais. A democratização de vozes nos encontrou idiotizados e a tempestade perfeita se formou.Recentemente, uma tragédia composta de açúcar e veneno só fez ressaltar a nossa amargura. Por dias que pareceram décadas, uma trajetória (muito) doce se viu jogada num linchamento covarde que, como sempre se dá, passou longe da justiça. O problema é que quem julga com a velocidade de um ditador não sofre consequência alguma. Fica só esperando o próximo júri do alto da sua infalibilidade imaginária.Deus me livre de subscrever sentenças e acórdãos moralistas com esses magistrados 5G. Vou seguir vigilante e, quando me sentir ouriçado para emitir uma opinião sobre temas complexos em segundos, me perguntarei se, em vez de inteligente, não estou só sendo um otário mesmo.