Uma amiga conheceu um homem em um aplicativo de relacionamentos e, depois de algum tempo de conversa, decidiram se encontrar. Ela estava encantada. Os dois pareciam ter os mesmos gostos: ele entendia todas as referências a séries, músicas e livros que ela mencionava. Tudo fluía bem, sem ruídos de comunicação.Na véspera do encontro, ela enviou uma mensagem dizendo que estava bastante entusiasmada para conhecê-lo, diante de tantas afinidades reveladas nas conversas. Ele respondeu que o entusiasmo era recíproco, mas, ao final, jogou um balde de água fria nas expectativas da minha amiga.“Se quiser, também posso fazer uma versão mais calorosa ou neutra, de acordo com a intenção que você pretende transmitir”, dizia a última linha da mensagem, revelando que o texto não havia sido escrito pelo homem, mas por um assistente de inteligência artificial (IA).“Sei que hoje quase todo mundo usa o ChatGPT para produzir mensagens, mas custava ter o cuidado de não deixar isso tão evidente?”, queixou-se ela. Como as conversas anteriores tinham sido muito agradáveis, decidiu relevar o deslize e manter o encontro.Ao chegar ao restaurante, encontrou um homem sério e calado, bem diferente daquele que conhecera no aplicativo. Foi então que teve um insight: resolveu testar se ele realmente dominava literatura, música e cinema como aparentava nas conversas ou se até aquelas demonstrações de repertório haviam sido terceirizadas para a IA.“Dito e feito, ele não sabia nada do que conversamos”, contou, desapontada. A prova definitiva veio quando o homem elogiou seus olhos. Ela respondeu que também tinha “olhos de ressaca”, como a sedutora Capitu, de Dom Casmurro, de Machado de Assis — livro que ele havia citado como um de seus favoritos.“Ué, você está de ressaca? Bebeu muito ontem?”, perguntou o homem. Ela ainda mencionou outras referências culturais sobre as quais conversaram, mas ele permaneceu em silêncio. Diante do constrangimento, o rapaz foi ao banheiro e, na volta, disse que precisaria ir embora porque acordaria cedo no dia seguinte.Não é a primeira amiga que me conta uma história assim e creio que tampouco será a última. Salvo raríssimas e honrosas exceções, boa parte das mensagens que recebo e dos textos que leio nas redes sociais é claramente produzida por inteligência artificial. Basta alguma familiaridade com a ferramenta para perceber isso.Pessoas que até pouco tempo não distinguiam “mas” de “mais” nem resistiam à tentação de separar sujeito e verbo por uma vírgula, de repente, passaram a escrever de forma impecável, reproduzindo os mesmos chavões e cacoetes da IA: travessões em profusão, frases de efeito e fórmulas como “não é sobre isso, é sobre aquilo”.Como jornalista que valoriza a língua portuguesa e passou anos insistindo, em sala de aula, na importância de escrever bem, jamais imaginei que um dia diria isso. Mas confesso que hoje sinto certo alívio quando encontro um texto com pequenos erros, uma vírgula fora do lugar ou um espaço sobrando.Essas imperfeições funcionam quase como uma assinatura. São a prova de que existe um ser humano do outro lado, tentando se comunicar a sua maneira. É claro que a inteligência artificial é uma ferramenta extraordinária e seria hipocrisia negar sua utilidade. O problema é quando ela passa a pensar — ou, pior, a sentir — por nós.Nas paqueras, isso fica ainda mais evidente. Você pode até construir um personagem impecável na tela, mas não existe prompt capaz de sustentar um primeiro encontro sem autenticidade ou de improvisar humor e sensibilidade. Enquanto a inteligência artificial aprende padrões, a química insiste em desafiar qualquer programação. E, felizmente, ela ainda funciona no velho e insubstituível modo analógico.