Ando com medo de que algo caia do céu sobre mim. Caminho desconfiado, buscando lugares seguros, lajes aparentemente resistentes, casamatas camufladas pelas ruas de Goiânia, bunkers encravados em condomínios fechados. O pressentimento de que posso ser esmagado a qualquer momento é tão forte que é quase possível tocá-lo. Tenho me sentido como Ramsés II na iminência das pragas do Egito. Mas não são sangue, rãs, piolhos, moscas, peste, úlcera, granizo, gafanhotos, trevas ou morte de primogênitos que ameaçam despencar sobre a minha, e a sua, cabeça de uma hora para outra. É algo concreto, ou melhor, composto de titânio, silício, polímeros: os satélites artificiais. Eles se contam aos milhares; pelo menos 14 mil, conforme leio no jornal — ler no jornal é força de expressão de quem caminha há mais de cinco décadas neste planeta, pois o que se abre à minha frente é uma tela de computador.