A clínica estava lotada. Para fazer o exame de ressonância magnética, era preciso paciência. Nas poltronas ao lado da minha, um casal estava de mãos dadas. Quando a funcionária se aproximou e gritou: “Eleusa, você é a próxima!”, o homem deu um beijo na mulher e recomendou: “Meu bem, não se esqueça do terço mental”.Curiosa para entender o que seria o tal “terço mental”, puxei conversa com o homem. Seu Cícero, de 74 anos, explicou-me que, embora ele e a esposa sejam espíritas, descobriram recentemente que rezar o terço era uma forma de meditação e ajudava a aplacar a ansiedade, sobretudo antes da ressonância.“Ficar quase uma hora dentro daquele tubo é horrível. Então, para que seja menos sofrido, ela entra para o exame, imagina que está com um terço nas mãos e começa a rezar mentalmente”, detalhou. “Entre uma Ave-Maria e um Pai-Nosso, ela vai se acalmando e, quando percebe, já acabou”, justificou.Ouvindo nossa conversa, uma mulher de uns 30 anos, que também aguardava o exame, quis saber o que dona Eleusa tinha. Seu Cícero respondeu que estavam investigando a possibilidade de uma metástase. “Ela passou por um câncer de mama e, agora, o médico suspeita que a doença tenha atingido o cérebro”, completou.“Está repreendido em nome de Jesus! Com certeza não será essa doença horrível, cujo nome não gosto nem de pronunciar!”, sentenciou a mulher. Resignado e abrindo um leve sorriso, seu Cícero rebateu: “Tomara que não seja, minha filha. Mas, se for, faz parte da vida. Pode acontecer com qualquer um de nós”.Percebendo a tranquilidade dele, quis saber como conseguia manter a serenidade diante de situações tão difíceis. “É preciso ter fé e alegria”, disse seu Cícero. “Fé no reencontro após a morte nós já temos. O grande desafio é a gente não se perder em vida. Para isso, precisamos da alegria.”Para não se perder de dona Eleusa, seu Cícero contou que prepararia uma massa de pão de queijo naquela tarde. “Depois, vamos colocar para assar e chamar os filhos e os netos para tomar um café coado na hora. Não tem tristeza que resista a uma quitanda saindo do forno!”, alegou ele, rindo.“Em julho, se Deus quiser, vamos acampar no Araguaia. Todo ano fazemos esse programa em família e, se o médico autorizar, estaremos lá”, afirmou seu Cícero. “A gente chora, tem medo, se angustia, mas não para. Porque, quando a morte chegar, queremos que ela nos encontre vivendo”, explicou.Lembrei-me da entrevista que a coreógrafa Deborah Colker concedeu na semana passada ao jornal Cura, fruto da angústia de Deborah diante da busca por uma solução para o problema de Theo. Em cada trecho do roteiro, uma fase da trajetória da avó com o neto era retratada: a magia dos orixás, o consolo dos salmos de Davi, os medicamentos de última geração e, por fim, o antídoto encontrado pela coreógrafa para resistir ao sofrimento: a alegria.“Quando fiz esse espetáculo sobre o Theo, encontrei a cura para o que não tem cura”, disse Deborah. Segundo ela, o afeto, a arte, a alegria, a conexão com a natureza e o cultivo da espiritualidade a ajudaram a compreender que a dor e a beleza caminham sempre juntas e que aceitar o que não tem solução também é uma forma de luta.Durante a entrevista, Deborah citou o poeta e compositor Leonard Cohen: “Na superfície perfeita, lisa, há sempre uma rachadura, e é por meio dela que a luz entra”. O que nos fere nos transforma. Pelos feixes brilhantes que atravessam a fissura, a vida nos lembra que temos um encontro marcado com ela e nos convida para dançar.