Sentada na sala de espera de um consultório, em que aguardava minha irmã ser atendida, ouço um senhor mais ou menos idoso, talvez um pouco mais do que eu mesma, dizer para uma moça que estava conversando com ele, ou melhor, ouvindo a fala dele, que era ininterrupta (o homem falava sem parar um minuto, sem dar tempo para a coitada da moça dizer um ai). De repente, ele dispara essa, que eu escuto, mas quase sem acreditar em meus ouvidos: “Quando vejo um celular na mão de pobre, eu tenho vontade de arrancar da mão dele. Já viu? Empregada doméstica tem celular, lixeiro de rua tem celular! Pobre não tem de ter celular, não”. A moça deu uma olhada em volta, mas só havia um menino distraído com seu gibi, esperando a vez, além da secretária educadíssima da doutora, e eu. Vi que a moça estava sem graça. Perguntei pra ela se ele era demente, fazendo sinal de loucura, girando a mão perto da cabeça, e ela acenou de volta que não sabia. Diálogo mudo, que o homem não percebeu.