Um dos meus sonhos realizados é ter uma biblioteca pessoal. Quando comecei a trabalhar com algum salário – fui também um estagiário que ia para a labuta em troca apenas da experiência –, passei a acumular mais exemplares porque adotei definitivamente o delicioso hábito de comprar as obras que me atraíam. Mas como todo bom leitor sabe, a gente sempre compra mais livros do que é capaz de ler. A leitura contesta aquele ditado que afirma que “tudo o que é bom dura pouco”. No caso da literatura, não acaba nunca, não importa o Matusalém que você se torne. E isso é reconfortante.E por que tenho uma biblioteca, afinal de contas? Para poder fazer o que a gente faz numa biblioteca: escolher e consultar. Eu estou sempre recorrendo a livros relacionados aos meus estudos, puxando-os das prateleiras, folheando-os, grifando e os devolvendo ao seu devido nicho, organizado em um sistema que só eu entendo. Mas bom mesmo é escolher um título para ler de forma descompromissada, pelo prazer de conhecer a obra, reencontrar com a prosa ou a poesia daquele autor ou autora, voltar a sonhar junto daquela boa companhia. E de vez em quando a gente se surpreende com o fato de há tanto tempo determinado livro estar ali à nossa disposição sem que tenha sido escolhido para ir à cabeceira.Aconteceu isso comigo dias desses. Eu sou um admirador da literatura argentina. Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Victoria Ocampo, Alejandra Pizarnik estão entre minhas preferências mais cheias de afeto na literatura latino-americana. Mas fuçando nessa parte de minha biblioteca, me deparei com um livro pequeno, de leitura rápida, do romancista e ensaísta Ricardo Piglia, chamado Formas Breves. É um volume de ensaios um pouco diferente, uma vez que ele optou pela reunião de excertos esparsos com reflexões que fez ao longo dos anos, anotações e impressões a respeito do gênero conto, com especial atenção nas maneiras criativas e inovadoras que seus conterrâneos Borges e Macedônio Fernández praticavam a escrita de textos de fôlego curto. A isso, ele mistura pitadas autobiográficas, contando também uma história um pouco difícil de acreditar que envolve duas cartas e ainda como ele imaginava que diferentes autores, como Kafka e Faulkner, levariam adiante enredos de contos dos escritores argentinos.É um exercício divertido, lúdico e erudito sobre o que significa a literatura para quem gosta de ler, para quem adora descobrir meandros em cada livro, de sua biblioteca ou não. O que me motiva a escrever sobre essa obra, que devorei em apenas um dia, não é, porém, o que Piglia registrou, mas sim o que eu escrevi na primeira página do volume. Lá está: Rogério Borges, 2003. Sim, um livro que adorei, que li numa sentada, como se diz, estava ao alcance da minha mão há 23 anos sem que eu o escolhesse entre os outros tantos vizinhos de prateleira que selecionei antes dele. Daí comecei a pensar como eu era 23 anos atrás, quais seriam minhas prioridades de leitura, meus interesses, meu nível de conhecimento sobre o que o autor argentino inclui em seu trabalho para dialogar com o leitor. Estaria eu preparado para aproveitar a obra tanto quanto aproveitei agora? Ela teria me dado algum insight que pudesse influenciar o que fiz desde então? Qual mistério ronda esse encontro marcado que só ocorreu quase um quarto de século depois?Piglia morreu em 2017, exatamente no dia do meu aniversário, 6 de janeiro. Seria mais um vínculo inexplicável com esse autor que me esperou tanto tempo, pacientemente, entre um Ernesto Sábato e um Roberto Arlt? Quantos ainda me aguardam nas prateleiras de minha biblioteca? Aliás, entendem melhor agora a razão de ter uma biblioteca? Já pensaram o quanto é bom se surpreender assim todos os dias?