Quem já mordiscou um disquinho simétrico, casca fina e crocante, brilho aveludado de uma fritura cirúrgica, e cravou os dentes numa pasta insossa, cheia de cartilagens, conhece bem a diferença entre forma e conteúdo. E essa foi a grande discussão na literatura brasileira do ano que acabou três noites atrás.É uma conversa pertinente, que não escapou às paixões militantes usadas como autodefesa em tempos de loucura digitalmente orquestrada. Não gosto de carteiraço de lugar de fala, mas entendo: mais vale afrouxar a razão para conservar um mínimo de civilidade do que discutir valores em abstrato com gente que só quer destruí-los. De uns anos para cá, menos por consciência cívica e mais ROI (é assim que a Faria Lima chama retorno sobre o investimento), o mercado editorial escalou a publicação de autores negros, índígenas, LGBT, transsexuais; muitas minas. Emergiu um coral de vozes silenciadas por uma literatura reduzida, há séculos, a privilégio de burguês.Claro, um escravo teve direito a nome, Tulio, quando Maria Firmina dos Reis escreveu Úrsula, em 1859. Aluísio Azevedo nos apresentou a Bertoleza, Rita Baiana, Firmo e Pombinha em O Cortiço, de 1890. Plenos de vida interior, Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos anônimos derretem sob sol inclemente em Vidas Secas, publicado por Graciliano em 1938. Mas esses tipos humanos que preferimos silenciosos e emocionalmente planos, para que limpem privadas ou rocem lotes sem incomodar, só faziam aparições esporádicas em nossas letras.Agora, filhas de empregadas domésticas, quilombolas, professores pretos humilhados pela PM, todos têm suas existências como fio condutor das narrativas. E o que se diz disso? Que essa urgência política de extravasar a injustiça sacrifica a estética. É o inverso do meu disquinho hipotético lá de cima: muito olho no recheio, pouco na crocância. Não me parece razoável rechaçar a crítica sem compreendê-la. O domínio da forma é condição essencial para que a literatura seja, de fato, literatura. Oferecer espaço às vozes historicamente emudecidas é o que vai democratizar a mais bonita das criações humanas, ou seja, uma coisa sustenta a outra.Fui me enfurnado nesse papo para jogar confetes em Neca, exuberante livro de Amara Moira. Travesti, professora de Literatura com doutorado em Ulysses, de Joyce, Amara verteu em 120 páginas o primeiro romance em bajubá, dialeto dos transexuais, feito de palavras forjadas sob violência. Como o Riobaldo de Grande Sertão: Veredas, a protagonista Simona sustenta um monólogo com uma interlocutora cuja reação é apenas insinuada. Ao detalhar as mais bizarras fantasias de seus clientes a uma aspirante na profissão, Simona sinaliza as válvulas de escape de uma sociedade que não cabe na farsa que montou para si mesma.É comovente como o humor tem o efeito do escudo espelhado que, na mitologia grega, foi usado contra Medusa. Protege, ao mesmo tempo que é uma arma. Amara foi colhendo vocábulos semeados por gerações de travestis, alguns hoje em desuso, o que faz de Neca também um documento de resgate histórico. Um ocó, que em bajubá quer dizer homem heterossexual, pode levar umas boas páginas até se situar no bajubá. Mas, quando enfim assimila o código, o prêmio surge. É um portento de forma e conteúdo.É uma pena o moralismo vigente, que prefere a proibição ao contexto. Porque a leitura de Neca não descortina somente o universo dos travestis. Diz muito mais sobre o mundo que quer vê-los mortos.