Nesta manhã, penso que talvez, quando eu for cuidar das plantas, eu melhore dessa tristeza. E vou. Mas a tristeza parece até que está me esperando lá no meio delas.Tento me lembrar de coisas alegres, como o que estava escrito no pano de prato, “Deus é alegria”. Deus é alegria. Deus é alegria. Quem sabe, se eu repetir isso muitas vezes, como com os mantras, a alegria vem?Eu não estava assim ontem. Pois é, não estava. Mas agora estou. E muito. Agora, nesse preciso momento, tudo dói. Até as plantas me lembram alguma dor antiga.Não é depressão, isto já foi investigado. É um jeito de ser. A tristeza vem assim, do nada. Estou frequentando um centro espírita já há algum tempo, e quando falei disso para um frequentador mais antigo, ele me aconselhou a fazer um tratamento de cura. E eu fiz. Com efeito, melhorei bastante. Não perguntei, mas sei que eles acreditam que algum espírito desencarnado se apossa de minha alegria e suga minha energia. Eles acreditam, e quem sou eu para contestar?Já ouvi algumas palestras bem boas lá, já senti muita paz com os passes, já ajudei em trabalhos voluntários. Pretendo continuar frequentando e fazendo um exercício de aceitação, ou melhor, de “desintelectualização” para não questionar as crenças.Outro exercício que venho fazendo é o de evitar notícias tristes, como guerra, crianças famintas, feminicidios, violências várias. Venho usando todos esses recursos, só que hoje a tristeza me pegou de jeito outra vez. Mas vai passar, vai passar, vai passar. E contínuo a cuidar das plantas.E agora vou me lembrando de que fiquei tão feliz no dia de meu aniversário, meus filhos fizeram uma festa linda para mim. Era pra ser uma surpresa, mas é claro que descobri antes. Vieram amigos queridos, meus netos encheram a casa de bilhetes, dizendo coisas maravilhosas - que nem acho que mereço - sobre essa avó aqui. Guardei todos os bilhetes numa gaveta de lembranças e agora, ao pensar nisso, sinto vontade de chorar.Vamos às plantas: arranco algumas folhas secas; reparo que um vaso está com pouca terra, mas como guardo um pouco de terra debaixo do tanque, já, já resolvo isso. A avenca voltou a ficar linda depois que a troquei de vaso e coloquei na sombra direto. É uma planta muito delicada, qualquer coisinha ela se ressente.Continuo a regar com gosto porque, mesmo com a seca já castigando, elas estão lindas. Gasto um bom tempo na jabuticabeira.Minha avó ficava muito no quintal da casa dela. Eu subia na goiabeira e de lá ficava vendo minha avó dar milho para as galinhas, encher um regador de água e molhar as plantas, e também fazer sabão, de vez em quando.Agora vou para o outro lado da casa, onde quase não bate sol e as plantas têm de ser de acordo. A primeira lição de jardinagem tem de ser essa: o lugar onde as plantas vão ficar, porque há aquelas que precisam de sol pleno e outras que apreciam sombra ou meia sombra.Chego nas orquídeas, que não são muitas, quase todas recebidas de presente, algumas bem antigas, mas que continuam florindo. E ficam muito tempo assim.De repente me lembrei do Zé Godoy dizer que eu estava muito “mulher casada” falando em samambaias. O Zé era muito engraçado. Mas eu sempre gostei de plantas, assim como minha mãe que um dia chorou porque quebramos um vaso dela de antúrio, correndo uma atrás da outra no alpendre da casa (cena indelével em minha memória).Agora fecho a torneira e só volto a regar as plantas depois de amanhã.Vou fazer café.Antes de entrar na casa arranco uma folha do limoeiro, amasso na mão e vou cheirando - dizem que dá alegria. Tomara.