Só o semiárido brabo mesmo. Foi assim que o guia Evair informou que não haveria oportunidade para banho naquele passeio. Saímos de Coronel José Dias e, com as bênçãos de Niède Guidon, entramos no Parque Nacional da Serra da Capivara, na região sudeste do Piauí. Não demorou, a curiosa nação de mocós começou a desentocar e posar mimética para fotos e videozinhos. Toda a fofura característica da família da cotia foi se dissipando trilha adentro, quando o guia revelou, com imparcialidade, que aquele animalzinho é o principal responsável pela depredação das pinturas pré-históricas, nos sítios arqueológicos dali. O desencanto me fez lembrar que, apesar de presença carismática, a atração principal da Serra da Capivara não é o mocó. Biólogos que estudam a fauna no parque observaram que esse bicho escolhe um só lugar para depositar urina e fezes. Não há estimativa que quantifique essa imensa população, mas sabe-se que varia entre seis e oito anos seu tempo de vida. Adaptado ao semiárido, esse roedor que come todo tipo de planta vive com pouquíssima água, o que justifica a acidez devastadora do xixi que escorre pelos paredões de pedra apagando as pinturas rupestres. Evair disse que só viu mocó beber água uma vez em 20 anos de profissão.