A bola de couro vagabundo, ovalada, cambaleou até o chute potente e preciso. Da nuvem de areia que subiu do campinho, Ortiz emergiu, braços escancarados. Meninos são encorajados a evitar contatos corporais com outros meninos, talvez por isso Fabiano lembre vividamente do roçar da barba brotando no rosto de Ortiz, quatro décadas depois da celebração desse gol marcado sob o sol de um verão dos anos 80. Não se trata de uma reminiscência sobre intimidades interditadas, tão fora do roteiro machista. O que aturde Fabiano é o assombro com o que se desfez. Como Ortiz, cúmplice de alegrias e angústias na travessia para a vida adulta, fisicamente tão próximo, se converteu num cara repulsivo não pelo que emana dos poros, mas da mente? A vida de ambos se bifurcou bem antes da multidão espumar nas urnas em 2018. Carente de talentos esportivos, Fabiano meteu-se a fazer vestibular enquanto Ortiz, impaciente com contemplações, alistou-se no Exército. O vagar dos anos na academia e nos quartéis se encarregou de afastá-los.