Sinto as panturrilhas doloridas depois de me equilibrar por três dias sobre as pedras de Paraty. Mas desconfio que parte da fadiga muscular seja também consequência da emoção de, pela primeira vez, participar da Flip como autor de um livro publicado. Foi bom ter cometido essa ousadia só depois dos 50, porque, em vez de vaidades por feitos banais, sobressalta em mim a gratidão pelos encontros que só a literatura permite.De que outra forma eu conheceria o João Paulo Vieira, um bancário em vias de sessentão que, ao se aposentar, deu vazão ao fabulador que a rotina entre duplicatas, cheques e compensações não deixava desabrochar? Que sorte a nossa que o João encontrou tempo para escrever, porque o homem é um sofisticado inventor de mundos incandescentes: externos e sobretudo interiores.Na sexta-feira, tão logo o sol se escondeu por trás da Serra da Bocaina, conversei com meu companheiro de casa editorial, a Urutau. A mesa, como de costume, tinha um título pretensioso: Vozes em Partilha – A Literatura como Encontro. Mas, no desenrolar do papo, dissolvemos qualquer traço de metáfora. O que houve lá foi de fato uma reunião de gente com ideias dignas de compartilhamento, tendo em mim a exceção para confirmar a regra.Antes da charla, obviamente li O Ventríloquo de Ybyrá, romance de estreia do João. Confesso que, de início, folheei o livro num misto de cordialidade com obrigação de ofício, pois não se vai descalço para uma conversa pública. Mal percorri 15 páginas, porém, já estava remando pelos igapós com o protagonista, Núncio. Em prosa poética, mas sem afetação, João me carregava pela floresta, num passeio que recomendo a todos.Núncio é um menino emudecido pelos traumas de infância. E esse recurso permite ao João lapidar com a habilidade de ourives o universo interior do protagonista, cuja transposição para a vida adulta acompanhamos atônitos, às vezes com embrulho no estômago. Sim, O Ventríloquo de Ybyrá é, também, um romance de formação.Dividido em três capítulos, o narrador alterna vozes, saindo do onisciente à primeira pessoa do protagonista, quando este, perdão pelo spoiler, recupera a fala. Embriagado na fonte da psicanálise, João constrói imagens belíssimas, com o ventríloquo que, lutando contra a máxima de Freud de que não somos senhores em nossa própria casa, manipula o inconsciente, transmutado em quatro bonecos de madeira. Há todo um banquete de referências que nos deleita.Aqui me permito o atrevimento de dizer que vi em João a intensidade emocional de uma Carla Madeira, com o que há de dor e delícia nessa constatação. A narrativa terna e lírica volta e meia desemboca em enchentes e incêndios torrenciais, reviravoltas um tanto hiperbólicas que, ao fim, soam orgânicas, porque impulsionam a história sem deixar espaço para a indiferença.O bancário que fabula inventou uma cidade amazônica também como um alerta aos tempos em que, acossados por medos insuflados, aceitamos trocar nossa liberdade pela proteção de sujeitos cujo maior ativo político é a truculência. Argamandel, o déspota prefeito de Ybyrá, parece terrivelmente atual ao justificar sua existência. “Cheguei e coloquei ordem por aqui. Era um bando de gente sem rumo, vivendo em barracas improvisadas, se matando por pouco.”Mas não julgue o livro do João como um vetor de pessimismo. Há uma frase que, a meu juízo, diz muito sobre o autor. “Só que, para querer, a gente precisa descobrir que pode”.Que bom que você descobriu que pode fabular, João. Paraty te espera mais vezes.