Passava um pouco das oito horas. Não havia uma nuvem sequer no céu. Azul era tudo o que se via no alto. Em um banco carcomido da praça, estavam sentados um homem idoso e uma mulher mais jovem. De olhos fechados e mãos sobre a barriga, ele inclinava a cabeça para trás, como se fosse soltar uma gargalhada a qualquer momento.Cansada da caminhada, sentei-me em um banco próximo e fiquei observando os dois. De repente, a mulher advertiu: “Pai, só mais um pouco, hein? O calor está forte”. Como uma criança prestes a perder seu brinquedo favorito, ele murmurou: “Ah, assim não tem graça. Me deixe ficar mais tempo aqui, por favor...”Sem celular nem relógio, a mulher me perguntou as horas. Quando respondi que eram oito e meia, ela foi categórica: “Mais meia hora apenas, viu?” Chateado, o homem abriu os olhos, me encarou e disparou, rindo alto: “Veja como a vida é irônica: criei uma filha para mandar em mim!”Seu Juarez gosta de conversar e não se fez de rogado. Quando perguntei por que tinham pressa de ir embora, ele contou que ainda estava fraco, pois sofrera um problema cardíaco e passara quase dois meses internado em um hospital — 40 dias deles em uma unidade de terapia intensiva (UTI).“Lá era muito triste, minha filha. Não tem coisa pior do que olhar para as paredes brancas o dia todo. Para qualquer lado que a gente se vire, só tem morte e sofrimento por perto”, constatou. “Que exagero, pai!”, interrompeu a filha. “Exagero porque não foi com você!”, rebateu o homem.Naquelas horas intermináveis, o maior sonho de seu Juarez era ter uma janela. “Eu desejava, mais do que tudo, ver a luz do sol”, justificou. Depois de coçar a cabeça e pensar um pouco, refletiu: “Parece loucura, porque é algo que a gente vê todos os dias. Mas, quando perde, sente uma falta imensa”.Disse a ele que compreendia sua ânsia por céu e sol. Quando tive Covid 19, em janeiro de 2021, passei 14 dias confinada, sozinha, em casa. Para não enlouquecer, esperava o movimento no prédio cessar, por volta das 22 horas, colocava a máscara, ia até a garagem, pegava o carro e dirigia a esmo pela cidade.Ver as ruas, as casas e o pequeno fluxo de pessoas caminhando me ajudava a amenizar a sensação de claustrofobia imposta pelo necessário isolamento. Nada, porém, se comparou ao dia em que pude, pela primeira vez, sair do apartamento durante o dia e ver o sol.Fui para o Lago das Rosas, sentei-me em um banco, tal qual fizera seu Juarez, e passei um bom tempo de olhos fechados, sentindo o calor que vinha do alto. Experimentar tamanho contentamento diante de algo aparentemente tão banal me causava estranheza e, ao mesmo tempo, uma gratidão inexplicável.Em menor escala, não foi a primeira vez que senti isso. Quando morei na Bélgica, enfrentei invernos rigorosos, com temperaturas de 15 graus negativos e dias em que o sol nascia às 10 horas e, às 16, já se punha. Ao retornar ao Brasil, a luminosidade intensa e o céu anil foram as coisas que mais me impactaram.“E vai fazer o que com todo esse sol agora?”, perguntei a seu Juarez. “Parar de ser bobo e aproveitar, uai!”, respondeu, com uma gargalhada solta. “Enquanto Deus me der perna e minha filha me acompanhar, estarei aqui nesta praça todos os dias”, garantiu. “A gente nunca sabe quando pode acabar, né?”, completou.Pensei na cena final do filme O Céu que nos Protege, quando Paul Bowles diz que a morte está sempre a caminho, mas que o fato de não sabermos quando ela chegará parece excluir da vida sua finitude. E sentencia: “Porque não sabemos, pensamos na vida como um bem inesgotável. Mesmo assim, tudo acontece apenas um número limitado de vezes. E um número bem pequeno, na verdade”.