Ontem fui visitar o parente de um casal de amigos que está hospitalizado. Com um câncer metastático em estágio avançado, ele se encontra na ala de cuidados paliativos da Santa Casa de Misericórdia de Goiânia. A internação foi feita via Sistema Único de Saúde (SUS) e o departamento surpreende pelo cuidado e humanização.Os quartos daquele andar todos têm nomes de árvores ou flores. No apartamento do paciente que visitei, as paredes eram coloridas e, na maior delas, havia várias borboletas pintadas. A enfermeira que entrou no quarto para medir a pressão falava baixinho para não o acordar e pegava em seu braço emagrecido com delicadeza.Enquanto a mulher recebia os familiares que foram visitar o marido, um irmão massageava as costas dele. Cansado de ficar deitado na cama, o paciente havia se sentado e a massagem aliviava as dores musculares. Depois, ele deitou-se novamente, mas não dormiu. Achava graça das piadas feitas e até participava delas.Lembrei-me da minha mãe, que também era uma paciente oncológica paliativa. Quando ela ouviu esse termo pela primeira vez, teve medo. “Quer dizer então que vou cruzar os braços e morrer? Não há mais nada que possa ser feito?”, questionou, surpresa, o médico que havia sugerido essa abordagem. Os cuidados paliativos são recomendados aos pacientes para os quais não há mais perspectiva de cura da doença, apenas de controle. Eles buscam promover a qualidade de vida e reduzir as dores e os desconfortos. Embora pareça que estejam conduzindo a pessoa ao fim, a verdade é que podem levá-la ao começo.No caso da minha mãe, foi início de um período de conversas longas, francas e profundas, sobre temas difíceis, espinhosos, a respeito dos quais nunca nos sentaríamos para falar, não fosse a lembrança de que a finitude batia à porta e de que alguns diálogos não podiam ser adiados. As mágoas que ela carregava, o perdão que não conseguia liberar, os amores, os medos, as frustrações, tudo isso foi conversado. Na nossa casa, não havia toque nem o hábito de dizer “eu te amo”. A forma de minha mãe demonstrar afeto era fazendo algo que fosse útil para nós ou preparando alguma comida que adorávamos.Durante sua última internação, antes de minha mãe ser transferida para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), tomei a iniciativa de dizer que a amava. E ela se permitiu fazer o mesmo. Também massageei suas costas e fiz cafuné em sua cabeça, e foi maravilhoso vê-la fechando os olhos e dizendo que “aquele carinho era bom demais”.Ela frisou que gostaria de ser cremada e não queria velório de forma alguma, e chegou a escolher a música da cerimônia de cremação e o tipo de maquiagem que seria feita em seu rosto, depois da morte. Cumprimos à risca todos os desejos dela e ficamos aliviados em saber que estávamos sendo fiéis à sua vontade. Na semana passada, muita gente falou sobre a vida da cantora Preta Gil. Poucos se atentaram, no entanto, aos momentos que precederam sua morte. Assim como minha mãe e o parente de meus amigos, Preta também foi uma paciente oncológica paliativa e passou os últimos meses da doença cercada de demonstrações de afeto.Foi bonito ver a atriz Carolina Dieckmmann contando que Preta não sentiu dor durante sua partida e que os melhores amigos e a família estavam todos reunidos em torno dela, segurando suas mãos, acariciando e lembrando à cantora o quanto ela era amada e especial.Os cuidados paliativos não são o fim, mas o início de uma relação mais verdadeira e consciente com aqueles que amamos e com a realidade da finitude. Se o leitor ou algum familiar seu estiver passando por isso, não se assuste. Permita-se dar e receber amor. Cuidar e ser cuidado. Abraçar e ser abraçado. Beijar e ser beijado. Não há beleza maior que experienciar o que realmente dá sentido a nossa existência.