Anos atrás, eu desabafava sobre como é exigente a maternidade, as tarefas e demandas constantes, ainda mais no meu caso, mãe solo durante boa parte do percurso, repetindo o que ocorre em tantas famílias. Seja naquelas em que o casal segue junto, mas ela acumula funções com malabarismos diante da ausência ou descaso dele, seja naquelas em que a separação de homem e mulher significou abandono da prole. Depois de chorar as pitangas, arrematei com um tom de desculpas pela queixa de ter que fazer tanto por amor. “Eu sempre quis ser mãe, nunca tive dúvida, era um desejo meu.” Para meu espanto, ouvi de volta o comentário atordoante: “Desejo seu? Será que você não foi enganada e acreditou que queria tanto o que era uma expectativa de outros?” Oi!?! Abalo nas certezas, o que é saudável, mas requer coragem, que é o que a vida quer de nós. Repensei as origens do meu desejo de ser mãe, que remonta a minhas antepassadas, mãe, avós, bisavós, tias e tias-avós, sim, tive a sorte de ter família grande e longeva, em que a convivência na infância e adolescência foi muito próxima. Era um mundo à parte o das que haviam atravessado o portal transformador da maternidade. Nas casas simples e de movimento intenso com a limpeza diária, preparo de alimentos, cuidados com os jardins, havia muitos, diante das casas, nas laterais, no começo de quintais gigantescos, reinavam as mães. Essa entidade, astro em torno do qual orbitávamos seguros de uma rota de acolhida e orientação, apesar da rigidez de costumes que determinava obediência e castigos a quem não se submetesse às ordens, até físicos. Impossível existir sem mãe, assim eu acreditava. Tive amigos, irmãos, cuja mãe morreu jovem em acidente. Consternação sem medida, o pai foi presente e assumiu no lar o papel que na pequena comunidade era feminino, se desdobrando como profissional e provedor também. Ainda assim, restava uma ausência insubstituível, ou ao menos era como eu percebia. A confraria das mães era fascinante. As conversas na cozinha enquanto era coado o café, os cochichos para que criança não ouvisse, e que tinham efeito contrário, porque quanto mais sussurravam maior era a atenção da inocência intrusa, até que notassem e mandassem sair. “Não é conversa pra menino, vá brincar lá fora!” Nesse reduto, só elas, que compartilhavam prazeres e aflições. Foi aí talvez que brotou meu desejo, a vontade de pertencer como essas mulheres a um outro mundo, vedado a quem não vivencia o amor visceral de cuidar de um ser gerado e dependente, numa relação em que tudo é extremo, as alegrias, os riscos, as dores. Nem tem como contar, só vivendo. E eu queria muito mesmo viver. Ao estrear nesse território, o que senti foi susto e pânico, uma insegurança paralisante pelo desafio de garantir a sobrevivência de alguém tão frágil aninhado no meu colo de primípara, como fui chamada e jamais vou esquecer, porque era tão de bicho e não de pessoa essa definição. Animais também, claro, mas bem diferentes, porque desejo não é instinto, desejo é o que nos faz humanos. Pode até ser que ‘meu’ desejo não fosse assim tão meu, mas uma mistura de desejos assimilada em mim, até porque nos fazemos a todo momento assim, nas trocas e mutações. O que vale é que me lancei no abismo para experimentar a vertigem sem volta. O que posso dizer é clichê: amor infinito. Tanto, tanto, tanto, que é a melhor e maior audácia da vida.