Desde o século IV a.C., os epicuristas já sabiam o que a pressa moderna insiste em duvidar: a vida é uma arquitetura de ciclos. Há o tempo da semente, o tempo do broto que rasga o solo, o tempo da flor e o tempo do fruto que madura sob o sol. O curso natural do homem é uma ladeira íngreme. Prepara-se o corpo e a mente, acumula-se cultura, arranca-se do chão o sustento e, se o roteirista oculto for benevolente, constitui-se família, filhos e netos. É a travessia das ribanceiras. Depois de tanto suor e poeira na subida, o caminhante finalmente alcança a planície. Larga e venturosa. É aquele trecho da jornada onde as pulsões, antes fogosas e tirânicas, deveriam assentar-se como a poeira depois da chuva no Cerrado. É o momento de usufruir do que foi edificado, de contemplar o horizonte sem a urgência do relógio, de ver os netos crescerem e de experimentar a virtuosa e merecida tranquilidade. Na planície, o homem deveria ser o senhor do seu tempo, reconciliando-se com a própria finitude.