Há alguns anos eu disse, numa crônica, que a geração dos meus netos teria um entendimento de que ninguém é feliz sem o consumo do álcool. Semanalmente, os pais levavam as crianças para o bar, junto a uma brinquedoteca, cheios de alegrias, rindo com amigos, fazendo demonstrações de que a única forma de ser alegre era consumindo cerveja. No entanto, vi, por alguns periódicos de negócios, que houve uma virada espetacular no consumo de álcool.A Geração Z está fazendo um desmonte total das gerações boêmias que as antecederam. O mercado de bebidas alcoólicas, esse titã que atravessou séculos vendendo o desafogo em doses, assiste, atônito, à evaporação de um mercado da bagatela de 830 bilhões de dólares. O álcool tornou-se, para o jovem de até vinte anos, uma substância “suja”, trocando o conhaque pelo Whey protein.No lugar da mesa do bar, entrou o altar da academia. Onde antes havia o tilintar de gelo e a fumaça de um cigarro de palha ou de um filtro barato, hoje reina o silêncio dos fones de ouvido e o brilho metálico das garrafas térmicas com água mineral. O vício não morreu, contudo; ele apenas trocou de endereço e de composição química. Se o álcool está em queda, o fumo sobreviveu sob uma mutação tecnológica perversa: o “pendrive” de fumaça. O vape, com seu vapor aromatizado, sabor melancia ou menta, é a nicotina com “design”, permitindo que o jovem mantenha a ansiedade sob controle sem o estigma do cinzeiro. É o vício charmoso e gourmetizado. Eles fumam com a pose de quem salva o planeta, exalando nuvens que desaparecem antes que o julgamento alheio possa materializar-se. É o pecado light, higienizado, a transgressão com porta USB.Dizem que essa geração não aprecia a leitura por extenso. Não busca a imersão em narrativas épicas, mas os fragmentos que iluminam o agora. Leem fazendo rolagem na tela, em saltos, buscando validação de sua própria existência. Estudar, por sua vez, tornou-se pragmático, uma busca por habilidades que o algoritmo ainda não saiba emular. A universidade, para eles, já não é o rito de passagem romântico, mas um investimento de risco em um mercado que derrete a cada nova atualização de inteligência artificial.No trabalho, a mudança é ainda mais profunda. A Geração Z inventou a “desistência silenciosa”. Não há apego ao crachá. O trabalho é visto como uma transação fria: horas de vida por moedas de subsistência. Eles não querem o topo da pirâmide se isso custar o cortisol matinal.E o que dizer do patrimônio e da velhice? Aqui reside um grande paradoxo. Diante de um mercado imobiliário proibitivo e de uma economia que flutua como o humor dos bilionários das Big Techs, essa geração desistiu do sonho da casa própria para investir em experiências. A aposentadoria é uma miragem que não se projeta aos 65 anos sob a expectativa de um INSS falido. O planejamento é de miniaposentadorias, ao longo da vida, hiatos de ócio entre contratos temporários, férias prolongadas e anos sabáticos. O patrimônio é a própria performance: o corpo tonificado.Ao trocar a boemia pelo autocuidado obsessivo, ganha-se em longevidade, mas perde-se, talvez, na capacidade de lidar com o imprevisto, com o erro, com o transbordar de um afeto que não caiba numa planilha de Excel ou num conselho de algoritmo. O futuro será limpo, higienizado e muito longo. Resta saber se, nesse mundo de cem anos de vida e zero miligramas de álcool, ainda haverá espaços para a poesia. Pois, parafraseando Vinícius de Moraes, só é poeta se sofrer. A vida pode ganhar em longevidade, mas perde em humanidade como a conhecíamos. Será uma vida tediosa e blasé?A Geração Z está redesenhando o que significa o ser humano e a sociedade. Em 30, 40 anos, ela terá nas mãos as rédeas do mundo. Penso que, os cientistas sociais poderão avaliar melhor se, com o menosprezo aos valores fundamentais do capitalismo, haverá um clima social propício para a implantação de regimes políticos de tendências comunistas ou socializantes. As novas gerações verão.