Não tenho um filho. Quer dizer, ter até que tenho, mas agora é como se não o tivesse. Não, não o reneguei, tampouco o deserdei. Combinamos que a partir de agora é como se ele não existisse. É que meu filho me proibiu de mencionar sua existência. A proibição não surgiu repentinamente, foi antes um processo que começou desde a pré-adolescência. Desde que ele ingressou em tal fase, por volta dos 10 ou 11 anos, o menininho que vivia grudado em mim, me enchia de beijos e elogios, passou por uma transformação assustadora. Tornou-se uma criatura arredia, mal humorada e excessivamente crítica. Onde teria ido parar o garoto carinhoso e divertido que assistia às minhas reportagens na TV e dizia “mamãe, eu gosto tanto da sua outra voz”, referindo-se ao timbre mais grave usado para as locuções; que me pedia para falar com ele nessa outra voz e logo em seguida apelava: “para, mamãe, eu estou com medo”?