A política externa dos Estados Unidos é frequentemente objeto de debates, com cientistas políticos apontando uma dicotomia entre as justificativas oficiais (promoção da democracia e paz) e interesses estratégicos subjacentes, especialmente o controle de recursos energéticos. Sem muito esforço, poderíamos citar exemplos de intervenções ou conflitos promovidos pelos EUA, em que o motivo alegado é humanitário, no entanto, o petróleo é amplamente citado por analistas como o elemento da motivação real. Incluem-se as refregas em curso, da invasão da Venezuela e o ataque ao Irã. Outros exemplos: Golpe de Estado no Irã (1953), Intervenção na Indonésia (1958), Guerra do Golfo (1991), Guerra do Iraque (2003), Intervenção na Líbia (2011) etc.Se o século 20 foi marcado tenazmente pelo fluxo negro do petróleo, o primeiro quarto do século 21 impôs uma nova e implacável hierarquia mineral: a das terras raras, elementos com os quais o Brasil se surpreendeu pela fartura. Minerais de nomes estranhos e propriedades magnéticas fundamentais, como o neodímio e o lantânio, tornaram-se os novos pilares da hegemonia global, como base das tecnologias emergentes ou de transição. E é sobre esse solo, rico em jazidas e pobre em defesas, que a sombra do governo Trump se projeta com crueza, sem moderação de eufemismos.A retórica de “América Primeiro” não admite a autodeterminação alheia, quando o que está em jogo é o suprimento vital para a indústria de defesa e a inteligência artificial. O interesse declarado de Washington pelas reservas brasileiras não é um convite ao desenvolvimento compartilhado. É mais um ultimato estratégico. O perigo que o Brasil corre é o de ser reduzido a um simples enclave extrativista, onde a soberania nacional é negociada em gramas de minérios, enquanto o lucro e o domínio tecnológico permanecem no Norte. O risco agiganta-se pela coincidência de ideologias entreguistas fortemente cultivadas por aqui.Essa pressão geopolítica perversa incide particularmente sobre os nossos biomas mais sensíveis. O Cerrado, berço das águas e coração do país, já agoniza sob o avanço de uma monocultura que agora ganha a companhia da mineração de larga escala. As terras raras não são colhidas na superfície, como quem cata cajuzinho ou pequi na estação propícia; sua extração exige a remoção de camadas profundas de solo e o uso de processos químicos que ameaçam contaminar o Aquífero Guarani e as bacias que alimentam o País. A morte silenciosa das nascentes é o preço que o império está disposto a impor-nos.Na Amazônia, o cenário já é de um cerco final. Onde a floresta ainda resiste, a cobiça mineral avança sobre as reservas indígenas, ignorando a sacralidade da terra e a legislação ambiental. A tentativa de abertura dessas áreas para a mineração transnacional é um golpe direto contra a integridade territorial e humana do país. Sob o pretexto de “combate à pobreza” ou “integração”, o que se planeja é a fragmentação de santuários biológicos para alimentar a sanha industrial estrangeira. Cada quilômetro de floresta derrubada é um passo a menos na nossa capacidade de sobrevivência climática.A submissão de parcela da sociedade brasileira a esse projeto de expropriação é a prova de uma miopia histórica, da persistência de nosso viralatismo. Entregar o controle das terras raras sem a garantia do domínio da cadeia de refino e a proteção de nossos ecossistemas é condenar o país a uma condição neocolonial. A democracia não se sustenta sobre solos erodidos e comunidades expropriadas.A soberania brasileira está sendo rifada em uma partida de jogo bruto. Se não houver uma reação que coloque a preservação do Cerrado e da Amazônia, acima do interesse das Big Techs e das bolsas de valores de Nova York, seremos lembrados por nossos descendentes como a geração que possuía o futuro nas mãos e o entregou, sem resistência, para quem nunca nos viu como nação, mas apenas como um depósito de commodities à espera do saque.