Havia em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou casas de pasto em que, sobre uma loja com feitio de taberna decente, se erguia uma sobreloja de feição caseira, onde se comia incógnito, com fartura e dignidade. Hoje não há mais. Fico pensando naquele para quem confiei um livro de fragmentos algo delirantes, aparentemente desconexo, e que ainda assim me fez a fineza de publicá-lo. O desejo de sossego e a conveniência de preços o levaram a ser frequente numa sobreloja dessas. Para comungar dos nossos silêncios, precisávamos de mesas baratas, anonimato, garçons indiferentes e tardes vazias. Quando saio da Rua dos Douradores, com a mente ainda latejando de fuçar nos livros da empresa do Vasco de Lapa, já não encontro lugares assim. Circulo entre gentes de pele avermelhada pelo sol do Atlântico, conversando línguas estranhas, enquanto os lisboetas desaparecem aos poucos, como parentes pobres que, resignados, se deixam de visitar. Entre mim e a vida havia um vidro tênue. Por mais nitidamente que a visse, não a podia tocar. Hoje o vidro desapareceu. A vida toca-me a toda hora. Vende-me café, apartamentos, lembranças e experiências. Chama-se Lisbon.