Há um instante de leveza no tempo, abrindo espaço para o silêncio primitivo que antecede às grandes iluminações do mundo. Nós, que já trazemos a sola dos pés desgastada ao longo das léguas sobre o asfalto abrasivo e a retina gasta pelo cinza das engrenagens urbanas, costumamos esquecer como se decifra a aurora. Mas a vida, em sua teimosia natural e divina, não pede licença aos céticos para operar os seus milagres. Ela se organiza no bojo dos dias e, de repente, resolve irromper na geografia humana sob a forma de uma menina. A paisagem pode não ser nova, mas é novíssimo seu olhar sobre ela, iluminado pelos castiçais do futuro. A pequena Laura vai chegar vislumbrando a luz da manhã, daquelas que não pedem licença, mas simplesmente clareiam o dia com o rubor exato das maçãs recolhidas em mês de agosto. É uma doçura temporã, um mormaço benigno que invade a clausura da nossa rotina e deixa-nos, a todos, com um gosto bom na boca e muito mais fã dessa ríspida aventura que é viver.Minha neta, você vem para ser a flor da nossa alegria, o diamante lapidado ao meio-dia sob o sol que nos clareia, refletindo feixes de esperança em todas as direções. Você é o perfume que irradia nossa fé, aquela teia sutil de energia que nos faz crer que o amanhã será um campo fértil, pronto para a germinação das boas sementes. Você há de ser feliz, Laurinha, com tudo o que tem direito nesta existência: com o vento batendo no rosto, o cheiro da terra molhada, após a primeira chuva da primavera, e com o seu próprio coração batendo, forte e senhor de si, dentro do peito. Esse pulsar livre e teimoso será a sua tração e bússola para percorrer seus caminhos no mundo.Sabemos, contudo, que o chão que a aguarda lá fora não é um mar de rosas colhidas no Éden. Você vai encontrar um mundo passando por confusões de toda ordem, uma modernidade barulhenta e afobada que parece ter desaprendido os cálculos da paz. As cidades cresceram em alinhamentos frios, os homens dividiram-se em disputas sem sentido, e as máquinas tentam, a todo momento, ditar a velocidade do afeto. Há um turbilhão de ruídos e fumaças que tenta rasurar a beleza original das coisas. Mas não se assuste, minha pequena. O segredo da marcha não está no tamanho da tempestade, mas na pureza do olhar de quem caminha.Dizem os moldadores de eventos que, de uns tempos para cá, a modernidade sólida virou modernidade líquida. Na velha modernidade, tudo que era sólido desmanchava no ar, para solidificar-se novamente, em novas bases, com as coisas se arranjando, na expectativa de que fosse de uma forma mais favorável. Na modernidade líquida, ou pós-modernidade, em que estamos vivendo, a realidade não é mais sólida e nuca mais vai se solidificar. Para nós, seus pais, seus avós, que viemos de outros tempos, sobrenadar nessa realidade é quase que se afogar diariamente.No entanto, não se assuste, pequena Laura. Você chega a este planeta com pré-disposição para adquirir novas e surpreendentes habilidades, equipada com olhos inteiramente novos, com visões que nós, os mais antigos, já não conseguimos conceber em nossos arsenais de razão e instintos. É por meio de sua meninice que o mundo cansado há de renovar-se. No meio desse desfiladeiro de concreto e incertezas, você tem a missão, quase sacerdotal, de encontrar e erguer o seu próprio território de sabedoria e serenidade. Onde os homens virem apenas o estrondo do trator, que você consiga escutar o murmúrio das águas nos lençóis, o sussurro pelas bocas das cacimbas. Onde houver a pressa do consumo, que você preserve o tempo residual do abraço. Você será a prova de que a infância não é uma seara que abandonamos, mas a atmosfera que viaja conosco, mantendo acesa a intenção de nunca se apagar. Laurinha, o mundo a espera para ser iluminado por você, pelas suas cores de encantamento, pelo seu olhar alegre e original. Que venha Laurinha!!!