O Conjunto Lar Brasileiro do Setor Sul, que volta e meia menciono, era formado por dois quarteirões de casas quase idênticas, de traçado modernista (houve até quem aventasse terem sido desenhadas por Lúcio Costa, arquiteto que projetou Brasília, mas este é um dado que nunca verifiquei).A nossa mudança da Rua 20 do Centro para o Lar Brasileiro foi em 1955, logo depois, ou um pouco antes do Instituto Maria Auxiliadora se instalar na Praça do Cruzeiro, que tecnicamente não era uma praça, mas um descampado onde se erguia uma cruz.Eu era muito pequena, não sei quem mais já morava em alguma outra casa do conjunto, mas nós estávamos entre os primeiros habitantes do lugar. A impressão que ainda guardo daqueles primeiros tempos é de vazio e distância. Mas sempre outras pessoas iam chegando e a gente acabava por conhecer todas, com raras exceções. A lonjura do centro da cidade meio que aproximava os moradores uns dos outros.No Colégio Auxiliadora havia uma capela onde se celebrava a missa de domingo. Depois que fiz a primeira comunhão eu me confessava com o padre antes de comungar porque o ritual era esse, era o que se fazia, não sei se continua assim. Influenciada pelos livros de vidas de santos da casa de minha avó, tive uma fase de almejar a santidade, quando menina - comungava todos os domingos.Agora, a confissão: o padre ficava sentado dentro do confessionário, por trás de uma treliça, e a primeira coisa que dizíamos, depois de nos ajoelhar em frente a ele, era: “Perdoa-me, padre, porque pequei”. Em seguida a gente contava os pecados, tipo, “Briguei com minha irmã, fui malcriada com minha mãe...” e tal.Uma vez eu tinha “brincado de médico” com um amiguinho da vizinhança; sabia que tinha sido um pecado, mas não juntava coragem de jeito nenhum de confessar isso ao padre. Tinha certeza de que iria direto para o inferno por causa daquilo, mas só de pensar em contar pro padre eu queria morrer.Adoeci. Fiquei de cama, com febre, impossibilitada de ir à missa de qualquer jeito, o que apenas adiou a confissão para a outra semana. Eu não podia ficar doente o resto da vida e acabei tendo de enfrentar a confissão. Neste ponto, para ser justa, devo dizer que ninguém me obrigava a me confessar e comungar, meu pai e minha mãe nem iam à missa, mas eu achava que as freiras estavam reparando quando eu não comparecia, e que Deus onisciente estava vendo tudo.Eu agora não tinha mais dúvidas de que iria para o inferno mais cedo ou mais tarde, caso não me confessasse, e mais depressa ainda se o padre achasse que eu não merecia perdão.No domingo seguinte, como sempre, lá fui eu, a proprietária de um livrinho de missa com a capa toda em madrepérola, com um buraquinho escondido na contracapa para guardar o pequeno terço. E para cobrir minha cabeça na missa, na hora da comunhão, tinha um véu branco todo de renda, lindo, lindo. Mas no caminho até a capela, é certeza que eu estava tremendo.Só me lembro de falar para o padre, depois do habitual “Perdoa-me, padre, porque pequei”: “Fui malcriada, com minha mãe, teimei com a minha avó, as coisas de sempre... E bem embolado no meio dos outros, relatado bem depressa, o pecado monstruoso que tinha me atormentado todos aqueles dias, “Brinquei de bobagem com meu amigo”.Hoje penso que o padre nem prestava muita atenção, decerto entediado com o desfile de nossos pecadinhos corriqueiros de menina. Ou nem ouviu.Me mandou rezar umas tantas Ave Marias. “Vá em paz, que o Senhor te acompanhe”, disse, como sempre.Amém.