Em 2012, a psicóloga argentina Sonia Vaccaro deu nome a um horror que, embora ancestral, carecia de etiqueta nos manuais de patologia social: a violência vicária. É o crime por tabela, o golpe desferido contra o inocente, apenas para que o estilhaço atinja o coração de um terceiro. No Brasil de 2026, essa definição saltou dos livros para uma cena real em Itumbiara, no Sul de Goiás, quando um pai de família, movido por um ódio incontido, assassinou os dois filhos para ferir a ex-esposa, antes de buscar para si o refúgio do suicídio. O crime chocou o País, criando leis que agora tipificam o “vicaricídio” como crime hediondo, reconhecendo que, utilizar o afeto como instrumento de crueldade, é a forma mais perversa de controle e vingança.Entretanto, se o sangue dessas crianças assombra-nos, há uma outra modalidade de gesto vicário que opera em silêncio, sem estardalhaço, mas com um poder de destruição que atinge milhões. Chamo-o de Voto Vicário. É a transposição da vingança cega para o exercício da democracia.O mecanismo é assustadoramente similar. Na tragédia doméstica, o agressor sacrifica o que possui de mais caro para punir o outro; na urna, o eleitor vicário sacrifica o próprio direito, o próprio pão e o futuro de sua prole para punir um fantasma ideológico. É o trabalhador que, intoxicado pelo ranço contra uma ala política — chamemos de “birra pelo outro” —, decide entregar seu voto a proposta, ainda que saiba, no fundo da consciência, que o programa ali ofertado é uma sentença contra sua própria classe.O voto vicário é o eleitor pobre que, movido pelo ódio adquirido, escolhe o desmantelamento do SUS; a negação da vacina; a cloroquina que, na dose ministrada, não cura e ainda mata; a violação do lockdown, que expande a peste; a extinção da Farmácia Popular e o fim do Bolsa Família, apenas para saborear a derrota de quem pegou ódio. Não se importa de submeter ao jugo de um governo estrangeiro, num colonialismo absurdo e fora de época, entregando os bens naturais, como as terras raras, que poderiam significar a emancipação econômica do País. Não é um voto de adesão a um projeto; é um voto de oposição ao bem-estar do outro, mesmo que esse “outro” inclua a si mesmo. É a raiva como emoção política suprema, aquela que, segundo cientistas políticos, reduz a disposição para ouvir e aumenta a tendência a decisões rápidas baseadas no julgamento de rejeição ao suposto adversário.Quanto pior for a proposta, quanto mais agressivo, o aceno para a retirada de direitos trabalhistas ou para o fim da aposentadoria, mais o eleitor vicário se sente atraído. Há um prazer mórbido, perverso, masoquista nesse processo: ele aceita o desamparo, o vale-gás cortado e a fila no hospital, desde que possa ver o “inimigo” político fora do poder. Ele vota com o fígado, operando o mesmo “vicaricídio” social que aquele pai goiano operou na sua intimidade. Ele mata as oportunidades dos próprios filhos no futuro para vingar seu ódio do presente.Nesse cenário, o capital, esse senhor amoral e ubíquo que não tem corpo, mas tem a todos, observa com satisfação. Ele não precisa mais de cajados para tocar o rebanho; o rebanho agora se flagela voluntariamente na esperança de que o chicote também atinja o vizinho. A classe média, situada no elo de transmissão da elite, acaba por defender interesses que não são seus, acreditando que a punição do “outro” é uma forma de ascensão, quando é apenas uma descida acelerada ao buraco.O voto vicário é, em última análise, o suicídio cívico por vingança. É a prova de que, na falta de uma consciência de classe que alinhe o voto à lucidez, o ser humano é perfeitamente capaz de atear fogo na própria casa, apenas para que a fumaça incomode quem ele aprendeu a odiar.Estamos a pouco mais de um mês das eleições. Grande parte dos brasileiros vai às urnas sob o império do ódio. O país que nascerá das urnas envenenadas será muito mais hostil e insalubre do que aquele que nossas esperanças desenharam para nossos filhos.