Uma bicicleta não é só uma bicicleta. É um bagageiro afetivo onde carregamos memórias que, em última instância, são o que somos. É um relicário do tanto de vida que colhemos em movimento, às vezes solitariamente, quase sempre ao lado de amigos. Não foi por excesso de sensibilidade que me vi amputado ao encontrar só o vazio no corrimão em que, pouco mais de uma hora antes, havia acorrentado minha bicicleta, no andar térreo da academia. Fiquem sabendo, aliás: uma corrente é frágil como papel diante do apetite de um ladrão com alicate. Fui roubado, isso mesmo, roubado, sem preciosismos de ordem jurídica. Porque aquilo tecnicamente chamado de furto foi uma violência que não para de se perpetuar em mim.Primeiro, porque pensamentos mesquinhos me assaltaram. O vazio rapidamente evoluiu para uma raiva que, se eu encontrasse o ladrão no auge desse sentimento, ali na esquina, talvez agisse de uma forma menos cordata da que gosto de ser reconhecido. Não foram nada bonitas as cenas que imaginei com o espírito em convulsão. O desejo de impor castigo físico a alguém nunca vem da racionalidade e fico admirado com a naturalidade que certas pessoas defendem, salivando de gozo, a violência como solução. Quanto mais pobre e mais melanina tiver o meliante, mais livre essa retórica circula.Falando nessas pessoas, não tardaram as reações de amigos de infância simpáticos à extrema-direita mobile phone - o que configura pleonasmo para quem, desgraçadamente como eu, nasceu nos anos 1970. Com aquele sorriso amarelado, de quem sabe que vai dizer uma tolice mas ainda assim não se contém, dedilharam freneticamente pelo zap:– Relaxa, teu bandido só queria uma cervejinha…Li, o desânimo com a estupidez alheia rapidamente evoluiu para uma raiva que, se eu encontrasse o sujeito no auge desse sentimento, ali na esquina, talvez agisse de uma forma menos cordata da que gosto de ser reconhecido. Foi bom, porque, com a masculinidade em frangalhos, essa gente faz crer que anda armada.A maior tragédia da segurança pública não é a perda de patrimônio, embora essa seja suficientemente grave, visto a dificuldade com que se adquire as coisas nesse Brasil. O mais perturbador é a capacidade que a violência tem de se retroalimentar do que há de pior em nós. A vítima passa a flertar com uma delinquência envernizada de moralidade. Há quem construa projetos de sociedade em cima desse, perdão pela liberdade poética, raciocínio.Não creio na fofura ancestral do ser humano, nem mesmo dos pobres. Sou meio hobbesiano: o homem experimenta um prazer quase carnal na crueldade. Aspirar um mundo sem ladrões, sem corruptos, sem pastores com BMW, é um atestado de desconhecimento da alma humana desejante. A vida não basta. Para isso, existe a arte, dizia Ferreira Gullar; ou o dinheiro, diz a Faria Lima.Mas sou ingênuo o suficiente para acreditar que, como sociedade, podemos criar condições para que menos gente se sinta estimulada a sair de casa, numa manhã nublada de sábado, para roubar bicicletas - ou enriquecer com dinheiro público, ou fazer fiel de trouxa. Como? Não sei, só formulo teses de mesa de bar, onde praguejo contra a desigualdade.De tudo, só tenho uma certeza. Ao debochar da vítima declaradamente triste, arrastando-a a um estado mental de vingança por razões ideológicas, nos aproximamos da indignidade de um ladrão de bicicleta com alicate afiado.