A noite no Cerrado possui uma dinâmica de silêncios e sons que o morador das cidades desaprende a decifrar. Mas para quem, como eu, carregou o barro das veredas, na sola dos pés, até os 19 anos, sem conhecer uma cidade grande, nunca existe mudez na escuridão e no intervalo em silêncio. Nesses tempos primeiros, meus pais – trabalhadores sem-terra, andarilhos da sobrevivência – traçaram uma geografia inquieta e tortuosa, migrando de uma fazenda a outra em busca de uma gleba provisória onde pudessem tocar uma rocinha de subsistência. Nossa morada era sempre o improviso indigente dos ranchos de sapé e pau a pique. Quase sempre reabitávamos taperas abandonadas, esqueletos de desejos humanos deixados por outros retirantes que tinham partido para procurar a sorte, em outro eito, escanteados em outros recantos.Nessas frestas de chão emprestado, tornei-me um observador compulsivo das miudezas do mundo ao redor. Sem o alvará de permissão da estabilidade, o meu patrimônio era o movimento. Aprendi a ler o comportamento dos ventos, a paleta de cores que antecede o mormaço da chuva, as vocalizações dos animais, do mugido grave do gado ao zumbido geométrico dos insetos invisíveis que habitavam a palha do teto. Todo esse inventário de silêncios, sons e texturas assentou-se no fundo do meu espírito, formando um acervo de doces recordações que o asfalto moderno, com seus rosários de ruídos, jamais conseguiu rasurar.Esta noite, contudo, a dinâmica climática operou um desses desvios que desafiam os compêndios da razão. Eu me encontrava naquele estágio crepuscular, entre o sono e a vigília, um quebranto benigno onde as amarras do real se afrouxam e a alma fica à flor da pele e até sai flutuando por caminhos encantados. Foi quando escutei o toque. Um vento bissexto, que certamente havia cruzado o meu destino na infância campesina, resolveu bater à minha janela. E não veio só. Parecia ter recrutado em suas andanças galácticas todos os ventos dominantes, dominados e distraídos que outrora sopraram sobre as taperas da minha memória.O que se seguiu não foi o rangido monótono das rajadas urbanas, mas uma serenata mística, uma sinfonia que superava em muito a harmonia rigorosa da Quinta de Beethoven. O vento executava uma seresta de filigranas: trazia o dedilhar de harpas ocultas nas ervas das várzeas, o timbre de violinos afinados no canto dos canários-da-terra e o contraponto grave de baixo-tubas executado pelos sapos na beira do brejo. Era uma polifonia vegetal e animal que roçava pelas paredes do meu quarto, desprovida de forma ou calibre preconcebidos, acontecendo em um não tempo absoluto.No auge desse concerto misterioso, o vento trouxe o som mais sagrado do meu arquivo interior: os acordes limpos da viola de meu pai, ponteando uma moda campeira, em dueto com a voz mansa de minha mãe, com sua(s) voz arenosa, de açúcar mascavo, que ajudava a adoçar a dureza da lida. Não havia o artifício da nostalgia utilitária; era a presença pura da infância que se manifestava por ondas de ar, audíveis, invadindo a clausura do meu quarto, que nem a umidade fresca da primeira chuva que batiza o solo esturricado do Cerrado.Aquele sopro onírico e úmido fez germinar, em regime de urgência, as sementes que, há décadas, dormiam esquecidas no subsolo da minha consciência. Fui tomado por uma felicidade indescritível, uma poesia indeclamável, que não cabe na métrica ordinária dos homens e que só a alma liberta, pelo entardecer do corpo, num certo torpor magnético, consegue fruir. O vento, afinal, provou que o passado não é uma seara que abandonamos, mas uma atmosfera que viaja conosco, bastando que a janela da alma esteja aberta para que ele volte a cantar as rimas telúricas do nosso primeiro chão.Como essas efemérides são esporádicas e sobre elas ninguém exerce qualquer controle, espero que a vida me ofereça oportunidades de usufruir das benesses de outras epifanias semelhantes.