“Não tem coisa mais triste do que um filho ficar sem a mãe”, disse minha avó ao assistir, na TV, em 1987, à reportagem sobre a transferência da menina Leide das Neves, de Goiânia para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, onde trataria a contaminação pelo césio 137.Leide tinha apenas 6 anos. Naquela época, eu tinha 12. Não conseguia parar de pensar no fato de uma garota tão pequena estar separada da mãe, Lourdes das Neves Ferreira. Ao chegar à missa na Igreja Ortodoxa com minha avó, pedi a Deus que a trouxesse de volta para casa. Não deu tempo. Leide morreu pouco depois.Uma década mais tarde, junto a outras colegas, produzi o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Goiás sobre os dez anos do acidente radioativo. Foi então que descobri que havia algo tão triste quanto um filho ficar sem a mãe: uma mãe perder um filho.Precisávamos entrevistar as vítimas do césio. Pedi orientação a uma professora de técnicas de reportagem sobre como abordar Lourdes. “Esteja pronta para tudo e não censure. Não intervenha. Deixe que ela se expresse livremente. Se houver choro, gritos, revolta, destempero, tudo isso é justificável. Respeite”, recomendou.Mas eu não estava preparada para o que encontrei. A mulher que perdeu a família, a casa e a identidade na tragédia do césio não se descontrolava. Não falava alto. Não surtava. Serena e equilibrada, relatava o acidente com calma, relembrando cada detalhe como se tudo tivesse acontecido ontem.A tristeza era quase tangível: refletia-se nos olhos e em um sorriso contido, que mal conseguia se abrir. A imagem daquela mulher pequenina contrastava com o tamanho do fardo que carregava — o peso da tragédia que abalou Goiás e o Brasil, o peso dos ombros que sustentam o mundo, como dizia Drummond.Trinta anos depois, revejo Lourdes com a mesma serenidade que tanto me marcou, em entrevista concedida aos jornalistas Jackson Abrão e Mirian Tomé para este jornal, sobre a repercussão da série Emergência Radioativa, da Netflix, e sobre sua vida quase quatro décadas após o acidente com o césio 137.Jackson e Mirian conduziram a entrevista com empatia e respeito, sem abrir mão de perguntas e observações precisas. Questionada sobre o tratamento recebido das autoridades, Lourdes foi firme: “Ao visitar o depósito radioativo em Abadia de Goiás me senti um lixo, pois até os rejeitos receberam mais atenção do que nós”.A entrevista foi exibida na segunda-feira, um dia após a Páscoa. Coincidentemente, no domingo, não parei de pensar em Lourdes. A Páscoa simboliza a ressurreição e, assim como Jesus, que enfrentou o martírio e foi perseguido e apedrejado, imaginei quantas vezes essa mulher precisou renascer desde a tragédia com o césio.É no equilíbrio de Lourdes que reside sua força. Se gritasse, xingasse ou se descontrolasse — e teria todas as razões para isso —, seria tachada de louca, e ninguém daria crédito ao que dissesse. No entanto, ao manter a calma e a lucidez, obriga todos a prestarem atenção em cada palavra que pronuncia.Capaz de repetir incontáveis vezes a linha do tempo do acidente radioativo, relembrando cada instante da tragédia, Lourdes transforma a consciência em sua arma mais poderosa contra a negligência, contra a tentativa de apagamento das autoridades e contra o preconceito e o descaso do público.A dor de Lourdes continua quase palpável, mas não supera o amor de uma mãe que se recusa a permitir que o mundo esqueça sua filha. Profundamente humana, ela rejeita o rótulo de “guerreira”. Em entrevista ao repórter Fábio Castro, da TV Anhanguera, em 2012, sentenciou: “Se até o ferro corrói, quem dirá eu, que sou de carne e osso”.