Faz dez anos que me constranjo. Já me conformei em me sentir embaraçado e até consigo tirar sarro do meu próprio constrangimento. Acontece numa roda de bar, num encontro com mais pessoas que ainda não conheço, num evento social ou profissional... Sempre tem a hora em que alguém me pergunta o que eu faço. Então eu respondo que sou escritor e começa o constrangimento. “Nossa! Escritor?”, é o que costumam expressar em seguida, olhando bem para mim; eu nunca sei se a expressão representa algo bom de verdade. Normalmente é uma curiosidade, como a de quando íamos ao zoológico e descobríamos um bicho novo. Porque na hora que a arquiteta disse que era arquiteta, ninguém se espantou. “Sim, sou escritor”, eu repito, respondendo à mulher que perguntou. Ela não para de me olhar: olha meu tênis, minha calça, minha camisa, procura uma marca, um sinal de riqueza ou pobreza. “Estou brincando! Imagina, escritor... Sou ordenhador de cobras”, eu ensaio uma gracinha, mas não faço. Os olhos arregalados em mim ainda esperam que eu me explique mais.