A minha dificuldade é com as palavras difíceis. Leio textos bonitos escritos com elas, as difíceis, textos que parecem ter sido escritos com naturalidade, como se as palavras rebuscadas fizessem mesmo parte da vida de quem as escreve. Não fizeram parte da minha. Ou ao menos eu não consegui guardá-las tão bem como deveria. Guardei “estrilicar”, “arruaçar”, “avacalhar”, “fuxicar”, “fofocar”. As palavras “estumar” e “entumecer”, por exemplo, eu não guardei, mas descobri na poesia de Adélia Prado, que me forçou a pesquisar nos dicionários. “Faz três horas que já estuma as musas (...)” Por isso, as difíceis não entram nos meus textos, porque eu ainda não tenho. Eu tive outras. Não é uma questão de não-querer as palavras entumecidas. Talvez seja uma questão de não caber. Escrevo isso e me sinto um jacu. Mas desfaço o sentimento em seguida, pois eu sei, sim, escrever. Quem não sabe não escreve dez livros (esse embate é o meu contra os meus fantasmas, a modéstia exagerada, a insegurança). Eu sei escrever.