O café preto desce, aplacando o frio, quando avista a mãe que corria antes que os portões da creche se fechassem. O boteco onde todas as manhãs apoia os cotovelos no balcão, atrás de algum ânimo para encarar o dia, fica na esquina da escola. Ao notá-la com respiração curta, afogueada, equilibrando o filho entre passos apressados, deixa a mente se espalhar ao longe. Pensa nos cavalos da Ilha de Sable. Localizada a 175 quilômetros da costa do Canadá, a ilha é uma perfeita sugestão de moradia para nossos piores inimigos. Não nasce uma árvore sequer no solo arenoso. Ventos incessantes rasgam a pele como faca nos invernos. Nesse terreno hostil, encoberto de nevoeiro denso por 125 dias por ano, um navegador inglês do século 18, espécie de ancestral dessa gente que larga cachorro em estrada às vésperas do Natal, achou de bom tom abandonar uns cavalos por lá, antes de seguir sacaneando outras colônias.