Foi uma rede social que me trouxe notícia sobre uma garota de 13 anos que fugiu de casa para se encontrar com o “amor de sua vida”, um jovem de 19 anos com quem conversava pelo celular. As reportagens e a comoção de comunidades diversas me levaram a uma sensação coletiva de preocupação e indignação. Mesmo deixando carta aos pais, o que pensávamos é que ela havia sido sequestrada ou, ao menos, induzida a fugir. Possibilidades que se caracterizam como crimes, dada a idade da menina.A alegria com a informação de que a adolescente havia sido encontrada deve ter sido unânime entre os familiares e os desconhecidos que se preocuparam com ela. Mas foi também pelas redes sociais que os sentimentos se divergiram. Mal chegara em casa, a garota, que imaginávamos estar traumatizada, usou esse canal para um “pronunciamento”, como ela mesma denominou.A adolescente de semblante determinado frisou que fugiu porque quis, contou como começou a se comunicar com o rapaz, reclamou de críticas que recebeu e orientou que as pessoas “deveriam lavar louça e deixar sua família em paz”. Não vou julgar. Para mim, a história se encerrou. O que me chama a atenção é o peso do uso dos celulares e das redes sociais por quem não tem idade nem maturidade para a complexidade do mundo tecnológico.Eu seria idiota se fizesse qualquer oposição à tecnologia. Até por ser de uma geração que viveu tanto o analógico quanto o digital. Eu, que na adolescência fiz curso de datilografia, trabalhei anos escrevendo reportagens datilografadas, recebi poucas horas de treinamento para aprender a usar um computador, tive o primeiro modelo de celular com internet, passei por incontáveis atualizações dessas ferramentas. Nunca seria resistente. Muito pelo contrário, sou apaixonada pela evolução da comunicação graças a tanta novidade.Fico, porém, assustada quando o acesso às mídias digitais perde o controle, principalmente entre menores de idade. Outro dia observei uma família em um restaurante de autosserviço. A adolescente fez o prato com coxinhas, nuggets e batatas fritas. A criança se serviu de arroz, alface e brócolis. E o pai montou um prato com carnes, legumes e grãos. Em comum, eles usavam o horário de almoço para alimentar seus vícios digitais. A jovem vendo vídeos pelo celular, o menino assistindo desenhos em um tablet, o adulto trocando mensagens pelo celular. As garfadas entravam pelas bocas de forma automática. A família não conversava.Crianças e adolescentes vivem numa era totalmente digital, mas raramente são preparados para esse universo. As informações que chegam de forma veloz são rapidamente digeridas e os deixam com linguagem adulta e mais conhecimento. Porém, não há uma condução sistemática e educativa. Mundo afora, algumas escolas da rede particular e pública introduziram em seus currículos aulas de informática, robótica, inteligência artificial e demais atualizações. Mas falta muito para o ideal de uma educação completa e digital.Da mesma forma, nas famílias há um descaso com o preparo dos filhos para esse mundo novo. Cada membro usa a tecnologia como bem quer. Abrindo espaços para o que há de pior na rede digital, expondo-se a todo tipo de riscos e golpes, isolando-se dos familiares e amigos. Uma vida com infinitos recursos de informação que não é bem vivida e se perde no individualismo.O que importa é mergulhar em suas telas e teclados. Se há estímulo rápido e aprendizado, há também despreparo, vaidade, agressividade, deturpação dos fatos, dificuldade de concentração, cansaço físico e mental, prejuízos ao sono. Realidade que pede atenção total, principalmente com o avanço da inteligência artificial.