Flusser nos ensina que o intelecto é uma tecelagem, que transforma o ‘algodão bruto’ dos sentidos em fios, que são as palavras”Nesta manhã, sinto o sol de primavera europeia que parece brincar com o frio que ainda teima em ocupar as frestas das pedras medievais por onde ando. Sinto uma luz que ilumina, mas não aquece, na qual enxergo uma espécie de luz filosófica e inspiradora. Enquanto caminho, carrego comigo um peso quase invisível, maior do que os casacos que precisamos manter. A viagem pelo território da memória exige uma coragem que às vezes me falta. Um exemplo disso aconteceu em Praga, onde estive a pouca distância do cemitério onde repousam os restos mortais do tcheco-brasileiro Vilém Flusser e não fui capaz de encarar...recuei diante do portal, punindo-me em silêncio por não ter “completado” o garimpo das memórias de mais um europeu exilado no Brasil. Porém, minha hesitação talvez não tenha sido covardia, mas um instinto de preservação da “fiação” intelectual. Se eu tivesse visitado seu túmulo em Praga, talvez estaria apenas em frente ao dado bruto da pedra, o silêncio final onde as frases evaporam.Flusser nos ensina que o intelecto é uma tecelagem, que transforma o “algodão bruto” dos sentidos em fios, que são as palavras. Assim, mantenho o fio vivo, pronto para a teia, em vez de entregá-lo ao nó cego da morte. Enquanto escrevo e percorro o fluxo das palavras, mantenho o sentido de urgência da missão a ser cumprida.Minha vida sempre foi feita dessa fiação de emergência. No orfanato, vivendo um script sem prólogo, sem genealogia, sem raízes, precisei transformar o silêncio do abandono em fios de estudo.A gratidão que sinto pelo alimento e pela orientação moral que recebi naquela época, é, em última análise, gratidão pela “primeira antessala” da linguagem que adentrei, enquanto mergulhava nos livros da biblioteca do Colégio Couto Magalhães em Anápolis. Foi lá que aprendi que, se não temos raízes no solo, precisamos lançá-las no espírito.A pensadora francesa Simone Weil me ensinou que o “enraizamento” é a necessidade mais invisível da alma e esse é um sentimento que vivenciei boa parte da minha vida. Se o húngaro Paulo Rónai via no trabalho de tradução um narcótico contra a dor do exílio, eu vejo na escrita a minha forma de carregar o mundo nos ombros, como conta o mito de Atlas, garantindo que o silêncio do passado não soterra a lucidez do presente.Mesmo nos lugares que não visitei, nos liceus que não encontrei e nos túmulos diante dos quais recuei –, sinto-me parte de uma geografia intelectual, porque como aprendi com meus mestres exilados que a verdadeira pátria não é feita de asfalto, cimento e aço, mas da resistência poética de quem se recusa a caminhar cego, surdo e insensível pelo mundo. As vidas de homens como Rónai, Flusser, Zweig (exilados desta região em que ora viajo) – e que escolheram o Brasil como pátria, não deixaram marcas na pedra, mas rica herança nas lições transmitidas.Confirmei que as cidades podem até esconder seus mortos e apagar seus endereços, mas a literatura se recusa a aceitar o “algodão bruto” do esquecimento. Enquanto houver um fio de palavra, haverá uma ponte.