Dizem por aí que quando não tem sol, os girassóis viram os rostos uns para os outros. Li isso recentemente em um livro excelente e também em alguma daquelas edificantes mensagens de autoajuda enviadas regularmente por um amigo no WhatsApp.Para comprovar, comprei dois girassóis e os pus lado a lado na sala. Pois não é que eles se viraram mesmo! Cada um virou a cara para o lado oposto à do outro. E as folhas murcharam como braços caídos desconsolados ao redor do corpo.Cogitei que ou estavam de mal, ou estavam emburrados, ou eu havia comprado gato por girassol. Talvez um margaridão, ou uma zínia, ou um crisântemo. Ando desabituada de flores, de contemplá-las e principalmente cultivá-las. Daí a confusão. Ou estariam os supostos girassóis desorientados como os galos com as luzes na cidade, não sabendo de que lado e a que horas bate o sol?Aliás, minha dúvida se agravou ao escrever sobre isso. Ainda se deve grafar “girassóis” ou se a norma mandaria agora grafar “gira-sóis”? É que o Acordo Ortográfico para unificar a grafia entre os países de Língua Portuguesa derrubou alguns acentos, aboliu hifens, instituiu outros onde antes não havia e instalou mais dúvidas e uma enorme bagunça na cabeça de gente antiga como eu. Já não basta a confusão de ideias. É preciso lembrar que as ideias com seu ditongo aberto perderam o acento, mas o ditongo aberto dos girassóis não caiu.Estando assentado que uns perderam o acento, outros não, volto às minhas especulações. Será que essa história de girassóis que se consolam e são solidários na treva só vale para girassóis em campo de girassóis e não para girassóis aprisionados em pequenos vasos? Ou seria lenda humana, digo, urbana. Seriam então “girassós”, ocupados em girar somente e sozinhos e egocêntricos em torno do sol, e pouco ligando para os outros que se encontram ao seu lado?Assim que expus minha inquietação para amigos em uma publicação em rede social, alguns me confirmaram que os girassóis deveriam estar emburrados mesmo, pois são plantas de sol pleno. Outros confirmaram que se trata de lenda urbana, digo, humana. E houve ainda quem me aconselhasse a cultivar plantas mais adequadas para viver à sombra. Cogitei comprar plantas de plástico, já que isso é tendência em Goiânia, onde até se instalou grama sintética no canteiro de uma avenida, com o argumento de que são altos os custos para manter a grama natural em períodos de seca.Em períodos de treva, também me custa abrir as cortinas da sala para deixar ao menos a claridade do dia entrar, mas isso em nada alterou o comportamento das plantas, que continuaram ali com as faces plantadas para direções opostas.Acabei decidindo colocá-las na varanda diretamente sob o sol antes que morressem de inanição de luz. Esqueci, no entanto, de visitá-las e quando o fiz constatei que haviam morrido, mas de inanição de água. Os cadáveres jaziam secos com as faces voltadas para o sol, em desespero de fotossíntese.Pobres girassóis! Se ainda tivessem a capacidade de chorar, teriam ao menos umedecido a pouca terra dos pequenos vasos com algumas gotas de água salgada. Isso não os pouparia de morrer, mas teria lhes garantido alguma sobrevida.Talvez eu não precise acrescentar que tudo isso que escrevo não é sobre girassóis, embora também seja sobre girassóis. Mas no nosso estágio atual de monoculturas, de imensos campos de girassóis egoístas, cada qual empurrando o outro nas fileiras apertadas para garantir o seu lugar ao sol, é sempre bom reforçar.