Homens rudes, fechados em um mutismo triste, em uma solidão escura, que atiram embalagens pelas janelas dos carros, despenteados, amarfanhados, pias com pratos e panelas sujas de muitos dias, que têm no banheiro apenas cacos de espelho (nos quais mal se olham, também em cacos), que se afogam em goles de pinga, que só estão juntos na sinuca (também disputa e alegria amargurada), que tudo querem resolver no grito, no braço, no tiro....Empilho aqui algumas das muitas imagens, que ainda reverberam em mim, do belo e premiado filme Oeste Outra Vez, escrito e dirigido pelo goiano Érico Rassi, que assisti junto com meu filho de 17 anos. Uma sessão doméstica de cinema marcada por muitas interrupções para que pudéssemos comentar sobre a profundidade de cada cena.Logo de início imaginei que meu filho fosse desistir de assisti-lo, pois ele, como um típico adolescente de seu tempo, está habituado aos jogos eletrônicos, aos animes, aos filmes violentos com cortes rápidos.Pois qual não fui a surpresa quando ele comentou que estava gostando de ver aquela sequência de planos mais longos, diferente do costumeiro, em que só aparentemente pouco acontece, mas carregados de muitos significados.A aridez da paisagem, do cerrado, degradado, repleto de embalagens plásticas ali atiradas. As cenas com diálogos curtos ou de quase silêncio entre os personagens, todos homens, que murmuram pouquíssimas palavras, algumas das quais quase ininteligíveis.“É difícil”, repete um dos personagens que tem no corpo uma daquelas marcas de ferro usadas para marcar gado. Mais não digo para não dar “spoiler” aos que ainda vão assistir.Aproveitei a oportunidade para bancar, não a crítica de cinema, que definitivamente não sou, mas a mãe mesmo, preocupada em não deixar no mundo um desses homens amargurados que reagem com violência às frustrações, à rejeição, ao abandono, que se batem com os rivais, que espancam e matam mulheres.Entre as muitas cenas sobre as quais discutimos está aquela em que um dos personagens, também abandonado pela mulher, resolve a questão na bala. É uma noite bastante escura. Há uma fogueira que se apaga e a câmera enquadra só esse homem, o rosto iluminado apenas pelas fagulhas que vão aos poucos se apagando (as fagulhas da raiva, as fagulhas do amor?), até que sua figura imerge na escuridão completa.A escuridão de um mundo sem mulheres? A escuridão de um mundo sem amor? Ou talvez antes a escuridão de um mundo sem diálogo, em que homens não aprendem a lidar com as próprias emoções, a falar sobre elas, a compartilhá-las, só sabendo externar a dor com atitudes violentas, ou embotar-se com a bebida.Notamos que, não por acaso, a única mulher que aparece no filme de Érico Rassi, um faroeste contemporâneo e tão próximo de nós, surge logo no começo, de costas, deixando a cena, deixando os dois homens que brigam por ela.Essa mulher foi embora, como as mulheres, na vida fora das telas, têm ido embora ou ao menos tentado abandonar relações sem diálogo e sem delicadeza, ficando também sozinhas, porém ao menos a salvo.Mas ao contrário do que alguns possam imaginar pelo que escrevi até aqui, esse não é um filme óbvio de crítica ao machismo, é antes uma obra que retrata (até com compaixão ou ternura) e dá muitas pistas sobre as origens desse silêncio e da solidão imensa de homens tão rudes que estão ficando sem suas “mulherzinhas”, aquelas que cuidavam deles e da casa, e toleravam sua rudeza.Entre essas pistas – comentei com meu filho – talvez estejam aquela marca de gado, o homem marcado como gado de outro homem, para servi-lo, o homem tentando marcar e manter a mulher como seu gado. O Velho Oeste é aqui outra vez ou ainda está aqui, o filme parece nos dizer, no Centro-Oeste, com suas disputas injustas de propriedade e poder, que machucam e matam homens e mulheres.