Preciso me decidir se tenho dó ou medo dos chefes que dão porrada na mesa e humilham os outros com esporros públicos, descabelados, fazendo a aorta pulsar no pescoço. Fui criado com chamego pela mamãe, estranhei demais essa gritaria nas firmas. Nasci para as bandas do Noroeste de Goiânia e, embora lá as coisas sejam barulhentas, nada se compara aos sons dos escritórios. É uma sinfonia de desespero, regida por ambição e insegurança. E a plateia está ali obrigada. Uns anos depois, me deram um crachá graúdo e tive de me inventar como chefe – ou líder, no eufemismo corporativo. Em tempos convulsos, notei que os boçais haviam me ensinado muito, em especial a não ser patético a ponto de me comportar como eles. Radicalizei na gentileza, porque a vida é um caos e, se há algo humano a ser feito, é não piorar o caos dos outros.