Acho curiosa a identificação ou rotulação tout court feita por alguns da obra cinematográfica do iraniano Jafar Panahi (1960) como “neorrealista”. Curiosa, mas não absurda, pois alguns filmes dele (O Balão Branco, O círculo, Ouro carmim) podem ser enquadrados assim, com seus atores não profissionais, personagens marginalizados, certo naturalismo, filmagens em locações, etc. Mas é importante ressaltar que, já no segundo longa que dirigiu, O Espelho (1997), temos a jovem protagonista (Mina Mohammad Khani) quebrando a quarta parede a certa altura, expondo o filme dentro do filme (ou as filmagens deste). No final, ela devolve o microfone e “desiste” de vez da brincadeira. Aqui e ali, portanto, Panahi investe em um metacinema que, enquanto tal, chama a atenção para a sua própria condição artificiosa. O neorrealismo (quando há) traja roupas pós-modernas. Creio que isso se dê, inclusive, por motivos de força maior, na medida em que o diretor é perseguido há anos pelo regime teocrático-ditatorial imposto pelos aiatolás: proibição de filmar, sentenças de prisão, proibições de sair do Irã, encarceramentos eventuais e ilegais, filmes rodados e exibidos clandestinamente —, Panahi já passou por tudo isso e muito mais.