O bom dia é sagrado na chegada e na saída. Uma alegria desconcertante. Muitos perfumes se misturam no ar. Não tem esse negócio de fone de ouvido. Na esteira uma prosa boa sobre tecidos, sobre receitas, sobre animaizinhos de estimação com a colega do lado, e ninguém assiste à TV. Numa academia que vende musculação para mulheres maiores de 60 anos, a troca de experiências pode ser intensa.As instrutoras e os instrutores são as melhores pessoas humanas. Personal trainer deve ser a profissão com maior empregabilidade no século 21. Aquele humor moderado, com sorrisão, aquela palavra de estímulo perfeitamente colocada que passa confiança, que constrói amizade na hora do supino articulado.Mas numa quinta-feira estraga prazeres, a mulher estava séria demais. Aquela conversa com a instrutora parecia ser um desabafo que começou sabotando a média de euforia e que pesou o rolê, definitivamente, quando geral escutou num tom acima da música ambiente: “Ela nunca mais vai botar as mãos em mim!”.Bolinho de gente foi se amontoando no fundo da academia para ouvir melhor. A mulher havia rompido um pacto de cuidados com sua médica ginecologista, depois de quase 40 anos de atendimento. A profissional que a orientou sobre prevenção de gravidez e ISTs, que tratou lesão pré-cancerígena de colo de útero e, como obstetra que foi, também trouxe ao mundo sua filha única.Não decidiu de pronto. Por várias semanas escutou o desconforto tanto quanto avaliou o senso de gratidão dedicado à médica. O abandono daquela que diagnosticou sua menopausa e topou conversar sobre o assunto moderando aridez e objetividade na fala requer mesmo serenidade.Tudo havia começado numa conversa casual entre instrutora e aluna sobre o inferno que é o agachamento com peso e sobre seus benefícios para fortalecimento de pernas, joelhos e assoalho pélvico. A mulher então confessou que queria dar uma atenção especial à musculatura da pelve. “Eu também. Eu também. Eu também”. Todas ali.No meio da conversa fiada, ela comentou com a personal que sua situação talvez estivesse agravada com o avanço da idade, afinal, durante o parto normal o períneo havia sido cortado com bisturi. Naquela manhã, enquanto treinava o tríceps braquial para sustentar o tchauzinho a mulher ouviu pela primeira vez o termo “violência obstétrica”.“Eu também. Eu também. Eu também”.Fez alongamento com a cabeça na lua e foi para casa calada, refletindo sobre esse poder que um dia foi dado a médicos e médicas. Um poder de transformar as práticas de cuidado em ferramenta para o controle dos corpos.Pensou também que, a partir da instituição dessa prática, qualquer cuidador ou cuidadora sem diploma pode estabelecer relações cotidianas que favoreçam hierarquias. Relações que ceifam autonomias e expõem a vulnerabilidade de quem estiver sendo cuidado.Como é estratégico que um assunto tão sério não seja amplamente discutido. O desejo de denunciar a agressão atravessou seus pensamentos e foi soterrado pela dúvida. E se ela mesma tivesse autorizado o corte no períneo durante as dores enlouquecedoras do parto? E se ela mesma tivesse assinado um documento permitindo procedimentos diversos contra si? Achou melhor embrulhar no estômago o incômodo que era só dela, afinal.Para consolidar a ruptura dos laços com a ginecologista demonstrando mais segurança e menos pesar, foi importante para a mulher aprender com Heike Drotbohm, pesquisadora alemã em Antropologia Social e Cultura, que o cuidado é, necessariamente, um pacto feito entre quem cuida e quem é cuidado. Que a gratidão pode ser um sentimento induzido pela moral, nesse contexto. Que a violência mora também onde se cuida.