Quisera eu ter a verve humorística de João Ubaldo Ribeiro, Luiz Fernando Verissimo, Ruy Castro, Mario Prata ou do colega querido Rogério Borges. Mas só de começar um texto com a antipatia de um pretérito mais que perfeito já deu pra constatar que passei longe dos craques da inteligência que recobre de graça, riso, momentos difíceis, ridículos, absurdos. Minha situação seria risível, não fosse a aflição de pesadelo seguida de um desamparo desorientador. Tudo por causa de um celular de marca chinesa, nada top nem caro, mas que abrigava um danado de um chip cuja perda me custou pânico pelo risco de me ver exposta a golpes, trapaças e, depois descobri, dar adeus a memórias em fotos e vídeos de momentos da nossa vida dos últimos vinte anos pelo menos. Transitava de Uber quando a estridente chamada do celular se tornou perturbação. Quis silenciar aquela insistência, tirei telefone e óculos da bolsa e, ao invés de apenas recusar a chamada, fui baixar volume, enquanto me desculpava com o motorista pelo incômodo, já chegando em casa, onde me despedi e desci, sem suspeitar da dor de cabeça iniciada ali.