Se há um arquiteto original para as obsessões nacionais, ele, decerto, não gastou régua com linhas retas. Entregou-nos o destino, em curvas, e entre todas as geometrias que o bicho humano domesticou, a ogiva é, com certeza, a mais carregada de misticismo e pólvora. Por definição, a ogiva é aquela linha precisa brotada do cruzamento harmonioso de dois arcos de círculo. Nas artes e na arquitetura, ela foi o alicerce do estilo gótico, erguendo os tetos das grandes catedrais europeias em direção ao infinito, fazendo com que as arcadas funcionassem como uma prece de pedra que desafia a gravidade, desde a era medieval.Chegou por aqui, primeiramente, na Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens, no Santuário do Caraça, em Minas Gerais. Depois, espalhou-se para Diamantina, Petrópolis, são Paulo e Santa Cruz do Sul. Chegou até Goiás, a antiga Capital, com a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. O estilo criou os vagos místicos que sustentam os mais belos vitrais. A ogiva sempre foi uma seta, uma coordenada vertical apontando para o divino, ou uma direção cardeal na rosa dos ventos. Se distribuirmos cinco ogivas, harmonicamente, em torno de um centro, o desenho resultante é a própria Estrela de Davi estilizada, um arranjo onde a geometria ajoelha-se diante do sagrado.A história humana é um pêndulo que oscila entre a transcendência do espírito e a crueza do estômago. Por uma dessas ironias anatômicas, que os deuses do mercado adoram patrocinar, a mesma forma geométrica que sustenta e desenha o bico das balísticas modernas — da bala de fuzil ao contorno assustador da bomba nuclear — habita o balcão do açougue. A picanha, essa peça que coroa o churrasco dos fins de semana, nada mais é do que uma ogiva perfeita de gordura, sangue e músculo. Sob a faca do açougueiro, o pedaço de carne exibe a mesmíssima curvatura dos portais de Notre-Dame, provando que o homem contemporâneo, em seu labirinto de afetos e apetites, colonizou até os traços sagrados para transformá-los em repasto.No Brasil contemporâneo, contudo, o gótico da picanha deixou as brasas da culinária para incendiar o tabuleiro do poder, provocando uma guerra de simbolismos sem precedentes. O governo de turno, compreendendo que o pão e o voto caminham de mãos dadas, transformou a peça de carne em uma promessa litúrgica: o pobre voltaria a comer picanha. O discurso oficial não vendia apenas proteína; vendia a inclusão social em formato ogival, o direito de o despossuído cravar os dentes na gema mais cobiçada da carne bovina, com seu sagrado apetite. Do outro lado da trincheira, a oposição rebateu com o gume afiado (possivelmente também ogival) da ironia, martelando que a promessa nunca passou de miragem, uma sombra ilusória projetada na parede, para iludir os eleitores em época de campanha eleitoral. Em vez do ouro da carne, teria entregado só o cascalho do garimpo.A verdade nua e crua é que a picanha, revestida de sua forma gótica, funciona como um catalisador de paixões. Ela esquenta e potencializa qualquer discussão, sobretudo, em épocas de polarização política extrema. Quando o cidadão discute o preço do quilo no supermercado, ele não está apenas debatendo economia doméstica, está operando um voto de amor ou ódio às estruturas que o cercam. A ogiva de carne tornou-se o míssil retórico de um país dividido, onde o churrasco virou trincheira e o carvão virou pólvora.Se a balística usa a ogiva para rasgar o ar e destruir o inimigo, a nossa política usa a picanha para fraturar a paz social, transformando uma preferência gastronômica em um tribunal de vaidades e pretensões de poder.Caminhamos, pois, tateando esse labirinto de símbolos, certos de que a nossa maior tragédia não é a escassez do arroz, do trigo ou do boi, mas a nossa incapacidade de perceber que, sob a gordura que doura no fogo, o que está sendo consumido, no final das contas, é nossa própria razoabilidade.