Posso te mostrar uma coisa? Perguntam os artistas quando estão para me apresentar uma criação sua. Alguns mostram uma música, outros um poema, talvez um roteiro de peça de teatro, esquete, às vezes as pessoas são tão artistas que querem mostrar mais do que uma categoria criativa. A cidade em que vivo está lotada delas. Se balançar qualquer árvore na Lagoa, caem três autodenominados “multiartistas”.E qual a única resposta para uma pergunta dessas? Impossível não deixar a pessoa “me mostrar uma coisa”, é rude! E eu sou super educado. Minha mãe sempre me ensinou a ser simpático com todos, imperativamente.Claro, pode mostrar sim. Respondo temeroso. Se prestassem atenção ativamente, perceberiam a tremulada que deu na minha voz ao responder afirmativamente. A impossibilidade de falar “não” me acanha, por mais que o cordial seja a resposta que eu concordo do fundo da minha alma. Mas, graças a Jah, ninguém nessa cidade presta atenção em ninguém, então a minha hesitação passa incólume.Com a devolutiva liberando a tal demonstração artística, revela-se o trabalho. Um número musical, ou encenação de monólogo, ou declamação de sei lá o quê... A pessoa mostra seu dote, seu talento, que provavelmente ficou horas trabalhando nele, se esforçando para exprimir alguma ideia ou sentimento que a levou a criar aquela obra. Dá tudo de si, pois, afinal, quer uma recepção positiva de sua entrega.Quando a pessoa arrasa, tudo fica lindo. Eu respiro aliviado em poder dar um feedback positivo, animado, até busco referências grandiosas para tentar expandir o debate proposto naquela criação. Tento ter uma troca de alto nível, já que a pessoa de fato me impressionou com aquela demonstração de talento.Entretanto, a vida não é um morango. Essas experiências citadas no parágrafo acima são raras, afinal, se todos fossemos bons artistas, quem trabalharia com engenharia ou química ou auditoria, não é mesmo? O mundo seria um grande frenesi criativo em que acabaríamos dançando para o abismo.E lá, nesse abismo, é onde me encontro quando tenho de fazer uma crítica cara a cara ao trabalho de outrem. “Tenho de fazer” é forte, pois eu poderia muito bem mentir, só falar que o poema esquisito da pessoa é a coisa mais linda que já vi, caprichando na hiperbole para não haver dúvidas de que gostei. Porém, além de me ensinar a simpatia, minha mãe também me ensinou a não mentir.Maldita hora em que ela me deu bronca por enganar meus amigos. Ela não imaginava o mal estar que isso me causaria mais tarde, quando estivesse em frente a alguém que tem certeza que é a reencarnação de Dante Alighieri que nasceu na Gávea. Então, na cara e na coragem, acabo cedendo à Ditadura da Verdade e choco o meu interlocutor dando uma opinião sincera.Claro que com jeitinho, já disse que sou educado. Explico cautelosamente o que achei que faltou ou sobrou na obra da pessoa, tentando não passar por cima da autoralidade dela. A questão é que a pessoa não queria uma crítica, mesmo que cheia de dedos. Assim, a torta de climão é servida e ficamos os dois frustrados! Eu por não conseguir mentir e a pessoa por não ser 100% validada com louvor. E, por um segundo, nós dois contemplamos juntos os horrores do feedback.