Se essa barafunda de letras e algarismos lhe diz alguma coisa, prometo esforço para que as frases a seguir tragam a quentura de um abraço. Ninguém se voluntaria a falar esse dialeto, pelo menos no papel de quem, sem jaleco, precisa compreendê-lo para alimentar ilusões de futuro. Nós o absorvemos sob violência, como um cativo cuspindo em desespero as sílabas do opressor. A primeira aula vem com o diagnóstico. O que vem depois da leitura do laudo nem mais vida é; o novo idioma só admite a existência acrescentando-lhe um prefixo: sobrevida. Conheci essa língua de vocábulos ásperos em dezembro e, quatro meses depois, ziguezagueando numa autopiedade dramática, me tornei fluente. Sinto saudade de quem eu era antes de entender o que Breslow quer dizer. Porque até aquela pinta assimétrica se projetar acima da pele, logo abaixo do joelho esquerdo, eu depositava uma confiança cega no meu corpo – ainda que este, arqueado por meio século de exageros, desse sinais recorrentes e irritantes de vacilo. Agora que ela ganhou o nome de melanoma maligno invasivo, com Clark IV, Espessura de 1,4 mm e índice mitótico de 2/mm², ando paranoico. Nem a remoção dela, “com margens cirúrgicas laterais e profundas livres”, me tira a ideia de que me tornei uma metáfora do mundo.