Na tragédia grega Medeia, de Eurípedes, Medeia, traída pelo marido Jasão, que a abandona para se casar com a filha do rei de Corinto, vinga-se, matando a princesa e seus próprios filhos com Jasão. Já na tragédia Édipo Rei, de Sófocles, Édipo, sem saber, mata o pai, Laio, e depois se casa com a própria mãe, Jocasta. Analisando a estrutura das tragédias, o filósofo Aristóteles apresenta o conceito de catarse, que seria um tipo de purificação, purgação ou limpeza, alcançado pelos espectadores ao sentir piedade e terror diante de tais representações no teatro.O conceito aristotélico de catarse vem sendo por muito tempo estudado, interpretado, utilizado pela psicanálise e aplicado a outras artes, como a música, a literatura, o cinema e as artes visuais. Ao ouvir canções que falam de traições e dores, ao ler livros ou ao assistir filmes que apresentam crimes horrendos, de certa forma estaríamos “lavando a alma”, realizando a catarse e ficaríamos aterrorizados, mas também compadecidos. Nós nos tornaríamos assim mais humanos, incapazes nós mesmos de infringir sofrimento aos nossos semelhantes.Porém, diante do que tenho visto principalmente com os realities shows e nas redes sociais, em especial as postagens sobre tragédias reais, como a ocorrida recentemente em Itumbiara, tenho me indagado se a catarse é ainda um conceito válido, se ela ainda se realiza. Ou se as pessoas, em vez de se aliviar e purificar com as obras de arte, não estariam se sujando, se tornando ainda mais cruéis e indiferentes ao sofrimento alheio, mais desumanas, ao consumir o mau jornalismo e conteúdos que exploram esse sofrimento em troca de likes. Ficando com as almas ainda mais sujas. Como canta Zeca Baleiro, “cê tá com a alma turva, irmão”.Ao assistir alguns episódios de um desses realities shows, e ver publicações e comentários sobre eles nas redes sociais, não posso deixar de pensar na semelhança com os antigos coliseus romanos, onde gladiadores, muitas vezes prisioneiros ou escravos, eram colocados para lutar entre si e com as feras. E uma plateia selvagem aplaude cada gota de sangue derramado, cada braço arrancado por um leão.Quando, em novembro do ano passado, um rapaz, com problemas mentais, entrou na jaula de uma leoa em João Pessoa, fiquei aterrorizada ao ler as publicações e comentários jocosos, cruéis. As feras somos nós, pensei.E continuo pensando ao ver tanta gente, homens e mulheres, tratando a mãe que teve seus filhos assassinados como se fosse ela uma Medeia, como se fosse ela a responsável pelo crime cometido pelo pai. Quantos julgamentos, quanto linchamento, quanta misoginia, machismo, crueldade, monstruosidade! Quanto sofrimento usado para gerar entretenimento, para ganhar audiência, likes, dinheiro!Como se os autores de postagens e comentários nas redes fossem uma plateia ensandecida, sedenta de sangue, que aplaudisse, julgasse e gritasse diante de um espetáculo: culpada! Morra! Mate! Pois tenho me perguntado se essa plateia, em vez de realizar a catarse com músicas, filmes, livros, peças de teatro, não aboliu completamente a arte de suas vidas e hoje só ocupa seu tempo livre com o entretenimento sensacionalista que se transformou grande parte do jornalismo, com os conteúdos impulsionados pelos algoritmos, eles que privilegiam o “quanto pior, melhor”; “nós, bons, contra os outros, maus”; “quanto maior o horror, mais tempo conectados”. A diversão diante das tragédias reais teria, portanto, tomado o lugar do terror e da piedade suscitados pelas tragédias ficcionais?